30/07/2019

Transformando a mente através da contemplação

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"Se não tivermos sabedoria para lidar com a mente e sua tendência em se fixar em coisas e julgamentos, seremos levados facilmente por impulsos e reações habituais equivocados (...) "

Se quisermos falar de bem-estar, qualidade de vida e felicidade teremos que falar sobre hábitos. E se quisermos falar sobre hábitos teremos que falar sobre a mente.

Nosso sofrimento e nossa felicidade começam na mente. É ela que determina nossas percepções e ações. É nela que emoções e os pensamentos dão sabor e significado às nossas experiências presentes e nos conduzem para experiências futuras. Portanto, se não tivermos sabedoria para lidar com a mente e sua tendência em se fixar em coisas e julgamentos, seremos levados facilmente por impulsos e reações habituais equivocados que não contribuirão para nosso bem-estar.

A sabedoria para lidar com a mente começa com o desenvolvimento da atenção. Sem atenção não há percepção clara do que fazemos e o porquê fazemos as coisas, o que significa que não vivemos, mas sim somos vividos por diversas forças inconscientes, ou seja, não somos capazes de ter uma verdadeira liberdade de escolha.

Podemos dizer que toda atividade humana envolve a busca e manutenção da sua liberdade pessoal, social, cultural, financeira etc. Mas poucas pessoas dão importância para a busca da liberdade da mente, isto porque elas não se dão conta de como sua mente está aprisionada a uma percepção fixa e limitada da realidade. Elas não percebem como estabelecem crenças e respostas emocionais que as tornam cada vez mais rígidas e pouco hábeis com seus pensamentos e ações.

Se quisermos nos libertar desta condição confusa da mente, precisamos desenvolver nossa atenção, exercitá-la e aperfeiçoá-la. Como diz Daniel Goleman no seu livro “Foco”:

“A atenção, do latim attendere, entrar em contato, nos conecta ao mundo, moldando e definindo a nossa experiência. Como escrevem os neurocientistas cognitivos Michael Posner e Mary Rothbart, a atenção fornece os mecanismos ‘que sustentam nossa consciência do mundo e a regulação voluntária dos nossos pensamentos e sentimentos’. Anne Treisman, uma autoridade nessa área de pesquisa, lembra que o modo como aplicamos nossa atenção determina o que vemos. Ou, como diz Yoda: - O seu foco é a sua realidade.”

Ao desenvolver e refinar nossa atenção, ganhamos mais autoconsciência e clareza do que se passa em nossa mente e mais habilidade para lidar com nossos impulsos emocionais.

Em minha experiência como instrutor de meditação, tenho visto como certas práticas simples que qualquer um pode realizar tem se mostrado ferramentas poderosas para desenvolver a atenção e as competências emocionais necessárias para transformar a mente e trazer mais sabedoria. A prática da meditação de atenção plena (mindfulness) é uma destas ferramentas já bastante conhecida. Mas outra ferramenta pouco conhecida é a prática da contemplação ou meditação analítica. Aliada à meditação de atenção plena, a prática da contemplação é muito utilizada no Budismo para integrar as visões de sabedoria e pacificar a mente. Sua prática utiliza de temas que são aprofundados a partir de uma técnica de reflexão meditativa, como uma forma de transformar a mente.

Nas palavras de Chagdud Tulku Rinpoche:

“A meditação tem dois propósitos: remover a delusão da mente e então acentuar o que é natural na mente. Muitas pessoas pensam que meditação significa limpar a lousa da mente e sentar quietamente sem pensamentos, até que experimentem algo agradável. Este tipo de meditação pode ser feita por um curto período de tempo, mas há muito mais do que isto a ser feito. Uma mente descansada e confortável é algo que cultivamos. Não é um estado de relaxamento que impomos à força numa mente perturbada.

Essencialmente, há duas coisas que nos sobrecarregam e nos causam uma falta de paz: medo e esperança. Essas emoções estão constantemente nos empurrando e puxando em uma direção e depois em outra. Tememos isso ou queremos aquilo todo o tempo. Sentar em quietude por um pouco de tempo ajuda, mas não produz mudança durável. O que produz uma transformação profunda começa com a contemplação.”

“Por meio de contemplações repetidas, ou do que, às vezes, é chamado de “meditação analítica” conseguimos transformar os nossos padrões de pensamento mais entranhados. Se não contemplarmos, os mesmos velhos venenos da mente — ignorância, apego, aversão, inveja e orgulho surgirão, dia após dia, ano após ano. Simplesmente tentar aquietar a mente não é o suficiente para superá-los”. Portões da Prática Budista – Ed. Makara

Como vemos no texto, somente trabalhar para fortalecer o foco e aquietar a mente não é suficiente para lidar com o sofrimento e a confusão. Os padrões de pensamento e hábitos emocionais precisam ser trabalhados pela familiarização com outra visão da realidade para que transforme nossa percepção.

“O Buda descreveu a prática de seus ensinamentos como “ir contra a corrente”. A luz firme do estado desperto revela o quanto somos empurrados no fluxo dos condicionamentos passados e hábitos.

No momento em que decidimos parar e olhar o que está acontecendo (como um nadador repentinamente mudando seu curso para nadar em outro sentido), nos encontramos sendo golpeados por correntes poderosas que nunca nem suspeitávamos existir — justamente porque até esse momento estávamos vivendo totalmente sobre seu comando”.

Stephen Batchelor, em “The Awakening of the West”

Por isso, neste trabalho de desconstrução precisaremos de diligência e um método que nos dê habilidade para lidar com a força dos hábitos.

No dia 14 de julho, estarei realizando mais uma Tarde Meditativa no Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling onde apresentarei uma introdução à prática da contemplação, utilizando textos reflexivos do Budismo Tibetano. Veja mais informações no anúncio abaixo.

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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