30/07/2019

O Brasil na Rota da Seda

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"O atual governo dos EUA, ao se retirar dos acordos globais e se recolher dentro de suas fronteiras cercadas por muros e barreiras comerciais, entrega para a China e a Rússia a iniciativa da defesa (...)"

As recentes revelações sobre a instrumentalização política da operação Lava-Jato por parte do judiciário e do Ministério Público trouxeram consigo especulações sobre até que ponto estaríamos sendo um joguete nas mãos das potências estrangeiras em luta pela hegemonia mundial.

Há muito tempo, suspeitas são levantadas sobre a influência americana na condução da operação que prendeu Lula e outros tantos acusados de corrupção. Foi durante os governos do PT que o Brasil se aproximou da China e da Rússia através da criação do BRICS (sigla que dá nome ao grupo de países formado por Brasil, Rússia, China e África do Sul). Interessaria aos EUA afastar o Brasil desse grupo de países.

Por outro lado, foi durante os governos petistas que o comércio entre Brasil e China tomou impulso. Ele chegou a ser tão lucrativo para nós que pagou a dívida externa e ainda permitiu ao País acumular reservas para se blindar contra crises cambiais. Por isso, há quem ache que os vazamentos que revelaram a instrumentalização de um processo judicial por um plano político favorecem a China e a Rússia por enfraquecerem o governo brasileiro, que opta por um alinhamento automático com os EUA.

Porém, parece ser consenso entre os de bom senso que o Brasil deve tirar proveito dos dois lados da disputa entre EUA e China pela hegemonia mundial. O vice-presidente brasileiro viajou recentemente à China e declarou apoio a valores como multilateralismo e livre circulação de mercadoria, serviços e pessoas, que, hoje, nos afasta do protecionismo dos EUA e nos aproxima da China e da Rússia, o que fortalece o BRICS.

Não é novidade o Brasil se sentir espremido entre potências estrangeiras. Foi assim o tempo todo, desde as origens no Tratado de Tordesilhas, que resolveu a disputa entre Portugal e Espanha pela hegemonia da época.

Depois, ficamos entre Inglaterra e França. A fuga para o Brasil de Dom João VI, perseguido pelo exército francês, que invadiu Lisboa, só foi possível porque a família real foi escoltada por uma esquadra Inglesa.

Já ficamos entre os EUA de Roosevelt e a Alemanha de Hitler no período do Estado Novo de Vargas. Já ficamos emparedados entre americanos e soviéticos no tempo da ditadura militar e da Guerra fria.

No momento presente, temos que tomar decisões estratégicas e escolher caminhos no mundo polarizado da transição hegemônica do Ocidente para o Oriente.

Vejo três campos nas quais a China se diferenciou em relação ao Ocidente e está colhendo muitas vantagens: 1) o sistema político de partido único; 2) o sistema econômico de um país, dois sistemas; e 3) o projeto da Nova Rota da Seda.

Várias pesquisas apontam o desencanto no Ocidente com a democracia representativa. Ela está, hoje, desvitalizada e carecendo de mecanismos de consenso que permitam o Estado gerir planos de logo prazo. Já o modelo Chinês troca uma parcela liberdade em favor de estruturas políticas estáveis capazes de sustentar projetos de longa maturação.

Quanto ao sistema econômico, a coexistência de comunismo e capitalismo nos mostra que eles podem ser, dentro de um mesmo país, complementares e não excludentes.

O atual governo dos EUA, ao se retirar dos acordos globais e se recolher dentro de suas fronteiras cercadas por muros e barreiras comerciais, entrega para a China e a Rússia a iniciativa da defesa das instituições do pós-guerra, como a ONU e a OMC, que foram criadas pelos EUA e moldaram a política internacional dos últimos setenta e cinco anos.

A antiga Rota da Seda partia do extremo leste da Eurásia e chegava até o seu extremo oeste na Península Ibérica. Muitas invenções feitas na China, como o astrolábio, a pólvora e o papel chegaram por essa via à Europa e impulsionaram o Renascimento. E foram justamente os povos ibéricos que puseram fim à hegemonia da Rota da Seda ao descobrirem o caminho marítimo para as Índias, o que colocou o Ocidente novamente na frente da disputada hegemonia mundial.

Assim, a Civilização Ocidental floresceu novamente e criou um sistema de trocas econômicas em escala global e reguladas por instituições multilaterais. O neoliberalismo foi o apogeu desse movimento. Porém, bruscamente tudo mudou, como costuma acontecer com as voláteis democracias ocidentais, e, agora, os EUA se isolam no nacionalismo do America first.

É nesse momento que a China aparece com a Nova Rota da Seda, injetando investimentos em um cinturão de iniciativas que privilegiam a conectividade física e de dados, as iniciativas ecológicas e o livre comércio. O admirável mundo novo da quarta revolução industrial e da quinta geração de tecnologias (5G) deverá, cada vez mais, depender do que se passa na China. A pergunta que fica é como o Brasil deverá se posicionar na Nova Rota da Seda?

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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