26/07/2019

As tríades da civilização e o espírito da História

Dib Curi Dib Curi
"O caos nos lembra sempre do fim, que é também um novo começo. Mas o que de fato valorizamos é a leitura apocalíptica do tempo, o momento trágico da destruição."

Junto com as civilizações árabes, egípcia, romana e judaica, houveram outras duas grandes civilizações que lançaram as nossas bases. Foram a Grécia e a Índia.

Em se tratando do nosso cotidiano, é claro que a civilização grega está muito mais presente no nosso modo de pensar e de viver. Como exemplo, o número incalculável de palavras de nosso vocabulário que tem origem na Grécia. Mas em se tratando de religiosidade, misticismo e transcêndência, não há dúvidas de que nossas raízes remontam também à ancestralidade das civilizações mais à leste, no oriente indiano.

Falando da Grécia, foi Platão que nos trouxe a primeira tríade deste texto. Platão é o Elo Perdido do ocidente, ponte e fio condutor do nosso pensamento entre a era arcaica, clássica, renascentista e os tempos atuais. Platão, no seu Mito da Carruagem, dividiu a alma humana em três forças: Timóica, Epitímica e Logóica. A Timóica trata da honra, do orgulho e poder; a Epitímica dos prazeres e do comércio; a Logóica é a sabedoria e a justiça. Assim, a verdadeira luta se daria dentro de nós mesmos e a luta de classes, defendida por Karl Marx, começaria realmente no interior de cada um, uma luta entre nossas próprias tendências.

Da tradição grega nos vem também a segunda tríade, destacada pelo filósofo francês Michel Serres. Esta tríade trata sobre os patronos da nossa civilização nas três Eras da nossa História.

Diz Michel Serres que, na antiguidade, o nosso patrono foi o Titã Atlas, que carregava o mundo nas costas. Com Atlas no comando durante séculos, o mundo permaneceu quase imóvel e pouca diferença fazia se nascêssemos em 5 mil anos antes de Cristo ou três séculos depois. O mundo parecia não mudar. Sabemos que um motor que tem muita força tem pouca velocidade. A força era a principal virtude de Atlas e o mundo estava estacionado em seus próprios alicerces, seus reis e seus deuses.

À partir da Renascença, do Mercantilismo, do Iluminismo e da Revolução Industrial, a humanidade se pôs em movimento e foi o Titã Prometeu (que roubou o fogo da inteligência dos deuses e deu aos homens) o regente da nossa História. As estruturas extremamente sólidas da antiguidade se liquefizeram pela liberdade da inteligência e pelo poder das idéias, e se aqueceram sob o calor do fogo indústrial, acelerando o movimento até nossos dias.

Então, em nossa Era, entra em cena o terceiro patrono, o deus Hermes da comunicação entre os os mundos, elevando-nos da materialidade à virtualidade e trazendo o mundo de volta aos símbolos perdidos que o originaram. Hermes nos trouxe o rádio, a televisão, o telefone e a internet. Hermes resgatou a comunicação com o mundo dos mortos, através do Espiritismo de Kardec. Hermes era, na Grécia, o psicopompo, ou seja, aquele que levava as almas para o Hades e as trazia de volta. Muitos pensadores atuais estariam sob a égide de Hermes; o psicanalista Carl Gustav Jung e o mitólogo Joseph Campbell entre eles, com suas incursões no inconsciente, o mundo subterrâneo do homem.

Quando o mundo parece ter perdido suas colunas mestras, é porque se tornou gasoso e caótico sob a batuta de Hermes, depois da enorme e revolucionária liquidez de Prometeu. O caos nos lembra sempre do fim, que é também um novo começo. Mas o que de fato valorizamos é a leitura apocalíptica do tempo, o momento trágico da nossa destruição.

Justamente neste ponto entra a terceira tríade do nosso texto: Na Índia milenar, sempre antes do aparecimento do novo, o velho precisaria ruir. Por isto, as três faces de Brahman, o Deus absoluto da Índia são: Brama, o criador; Vishnu, o mantenedor e Shiva o destruidor. Shiva sempre trabalha antes de Brama. A destruição é pré requisito da criação. Por isto, o trágico pode ser também alegre.

Neste ponto, percebe-se a necessidade da quarta tríade, que nos leve às condições interiores da criação: Na Índia, os lendários Vedas anunciaram também as três tendências da alma humana: Tamas, Rajas e Satva. Tamas é a inércia, o letárgico, o entorpecido. Está associado à escuridão, ilusão e a ignorância. Rajas é a força que cria os desejos de coisas novas e os temores de perder aquilo que se tem. Estes desejos e medos nos conduzem à atividade. Finalmente, Satva indica equilíbrio, ordem e pureza. É um estado mental positivo e coerente. Psicologicamente falando é afectuoso, calmo, desperto, altruísta e lúcido. A humanidade parece caminhar de Tamas à Satva, através de Rajas. No fundo, o Espírito íntimo das coisas está vindo à luz através da História.

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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