26/06/2019

O espelho da liberdade

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"Quando as pessoas assumem essa responsabilidade e deixam de acusar qualquer coisa ou pessoa pela sua experiência de vida, uma verdadeira mudança acontece."

“As pessoas formam uma nação e procuram um sábio senhor, mas como não conhecem completamente a razão pela qual um sábio senhor é sábio, esperam apenas ser sustentadas pelo sábio senhor. Não notam que são elas que sustentam o sábio senhor”. (Eihei Dogen)

O Mestre Zen Dogen escreveu estas palavras em 1243, mas elas ainda servem muito bem para refletirmos sobre diversos aspectos de nossa vida, de forma que possamos verdadeiramente ter uma vida íntegra e feliz .

Estamos sempre criando relações de dependência. Temos a tendência de sempre eleger alguma pessoa ou condição que nos “sustentem”. E por trás disto está sempre a crença de que somente fora de nós encontraremos aquilo que necessitarmos. Muitas vezes nem sabemos realmente o que necessitamos. Mas nós sentimos o impulso de buscar algo fora de nós, projetando em diversos “objetos de desejo” esta nossa “necessidade” interior.

Quase sempre buscamos soluções numa mudança de nossas situações de vida sejam elas amorosa, profissional, social ou política. Ao vermos que algo está errado ou que não condiz com o que esperamos da vida, acabamos por identificar a solução numa mudança externa e nessa mudança jogamos todas as nossas esperanças.

Mas as coisas não são tão simples assim. Segundo os ensinamentos budistas a vida é como um espelho. Como ensina Chagdud Tulku Rinpoche:

“Num sentido espiritual, não é muito efetivo tentar mudar o mundo externo para evitar nosso sofrimento. Por exemplo, se nos olhamos num espelho e vemos um rosto sujo, poderíamos pensar “Oh, que rosto imundo!” e rapidamente pegar um pano e esfregar o espelho. Esta não é a forma de nos livrarmos da face suja que vemos.

Uma vez tendo realizado que o que está refletido é nossa própria face, podemos mudar a aparência no espelho simplesmente lavando o rosto. Não obteremos resultados lavando o sofrimento de nossas circunstâncias mas, reconhecendo nossa mente como a causa original, podemos nos modificar”.Chagdud Tulku Rinpoche - Vida e Morte no Budismo Tibetano – Editora Makara.

Tudo que vivemos tem essa qualidade de espelho e na medida em que compreendemos isto temos mais habilidade em lidar com tudo aquilo que nos perturba e conseguimos conquistar certa integridade e liberdade em nossas vidas. Não ficaremos tão dependentes de pessoas e situações e poderemos fazer escolhas conscientes e criativas.

Ter esta mudança de percepção não é fácil, pois temos a crença de que a realidade exterior dita a nossa experiência interior. Sempre colocamos a causa do que vivemos nas situações externas a nós e este é o equívoco que temos que reconhecer. Nas palavras de Alan Wallace:

“Quando sentimos o sofrimento, habitualmente identificamos sua fonte como ‘exterior’ — outras pessoas, situações, o tráfego, o governo. No budismo, esta é uma análise incorreta, uma visão errada.

O diagnóstico radical budista da nossa condição é que a fonte do sofrimento está nas aflições mentais. Quando elas são canalizadas em uma das diversas maneiras, nós sofremos.

A fonte verdadeira do sofrimento não é ‘exterior’. As circunstâncias externas e as pessoas servem meramente como catalisadores para acionar algo que já está dentro de nós. A fonte do sofrimento não é nosso emprego, esposa, filhos ou outras variações do tema: ‘Eu estou sofrendo por causa deles ou por isso’.A fonte do sofrimento está enraizada nas aflições mentais”.B. Alan Wallace - Budismo com Atitude – Editora Lúcida Letra

Ao trabalhar com nossas aflições mentais e mudarmos nossa mente, veremos o mundo de forma diferente, como na estória do rosto e do espelho. Este tipo de sabedoria é que pode nos dar a verdadeira liberdade e felicidade.

Quando Mestre Dogen nos fala que somos nós que sustentamos o sábio senhor, entendo que ele quer nos alertar para o fato de que ao projetarmos nossas esperanças de mudança no mundo exterior, alimentamos esta tendência de nos colocarmos como vítimas da realidade, perdendo a oportunidade de descobrir o potencial criativo que faz parte de nossa natureza.

Quando as pessoas assumem essa responsabilidade e deixam de acusar qualquer coisa ou pessoa pela sua experiência de vida, uma verdadeira mudança acontece. Quando ao invés de tentarmos mudar o mundo para termos felicidade, buscamos as sementes de felicidade incondicional que temos dentro de nós, temos a condição de semear esta felicidade em cada ato, palavra e ação e assim ver um mundo mais feliz a cada instante.

“O que é verdade para o sofrimento também é para a felicidade. Não podemos esperar que a felicidade venha de fatores externos, como bens materiais, glória, fama ou poder. Todos sabemos que as pessoas mais ricas e poderosas são muitas vezes as mais atormentadas. Então, não é cercando a si mesmo com condições externas aparentemente favoráveis que nós poderemos atingir a serenidade real. Essa paz e felicidade deve vir de dentro, e nós devemos construí-las e desenvolvê-las. Uma vez que tenhamos atingido este estado de paz, nada e ninguém poderão tirá-lo novamente de nós”. Kyabje Shechen Rabjam Rinpoche, em Bodhicitta, A Mente da Iluminação.

Imagine uma nação em que todos assumam este tipo de responsabilidade. Como seria?

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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