26/06/2019

O quadrado conservador

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"Os grandes problemas mundiais, – aquecimento global, fluxos migratórios, transformações no mundo do trabalho, controle de epidemias, – só poderão ser resolvidos com diálogo entre os povos e ações de longo prazo"

Os fatos políticos recentes no Brasil demonstram uma deterioração da habilidade da representação política de conduzir o processo democrático.

Quero pensar aqui, do ponto de vista histórico, o que está por trás disso. Gastamos muita energia com bravatas e alardes enquanto a História com H maiúsculo vai se desenrolando debaixo do nariz e não vemos.

O que parece que está acontecendo é a aliança improvável e incomum entre os quatro blocos que compõem a chamada civilização judaico-cristã: católico, ortodoxo (russo), protestante e judeu. É uma aliança frente à ascensão de outras duas civilizações, a chinesa e a indiana.

China e Índia detinham dois terços da economia mundial antes do Renascimento Europeu. Após uma meteórica ascensão do poder econômico e militar do Ocidente, devido principalmente o início das relações comercias entre Oriente e Ocidente com as grandes navegações e descobrimentos, passados quinhentos anos, nota-se um já vaticinado declínio do Ocidente e um retorno da hegemonia econômica de chineses e indianos.

A globalização assentada sobre a Pax Americana dos últimos setenta anos do pós-guerra foi uma tentativa de reunião de todo o mundo sob a influência do modo de vida ocidental. Com o fim do comunismo Soviético no final dos anos 1980, surge o neoliberalismo, que suplanta a socialdemocracia com suas propostas de livre comércio, livre mercado e livre iniciativa.

A Guerra Fria acabou sendo vencida pelo Ocidente capitalista devido a uma aliança entre os EUA de Nixon e Kissinger com a China nos anos 1970. Assim, de uma só tacada os EUA isolaram a União Soviética, conseguiram acesso a uma inesgotável fonte de mão de obra barata que desmontaria toda a organização dos trabalhadores por melhores condições de vida e ainda ganharia um imenso novo mercado consumidor para a american way of life. Com esse discurso, o neoliberalismo venceu a social-democracia e vinha implementando seu projeto até esbarrar nos seus limites.

Pois surgem dois problemas. O padrão de vida Ocidental compromete o meio ambiente e o aquecimento global pode vir a inviabilizar a vida humana em muitos lugares que hoje são habitáveis. A automação aliada à inteligência artificial está nas vésperas de transformar as relações de trabalho, tornando as massas irrelevantes tanto para a produção quanto para o consumo. Solução da direita: é preciso construir muros e distribuir armas.

É neste contexto de perda de confiança das massas na razão, na ciência e no progresso que podemos compreender os fatos políticos atuais no Brasil e no mundo.

Quem melhor captou o espírito da época e pôs tudo isso para funcionar a seu favor foi o presidente da Rússia Vladmir Putin. Estando há muitos anos no poder de forma semi-autoritária, Putin tornou-se o homem mais poderoso de nosso tempo. Como um grande contraponto ao movimento de aproximação entre Nixon e a China, Putin firmou um novo acordo de parceria estratégica com a China de Xi Jinping no momento em que os EUA e a China de colaboradores viscerais passam a romper acordos comercias que construíram toda a era do neoliberalismo. No fundo, trata-se de uma disputa pela implantação da nova rede 5G que viabilizará a quarta revolução industrial que promete a substituição dos trabalhadores por robôs e impressoras 3D.

Pois Putin consegue, pelo menos neste instante, realizar o feito de estar com um pé em cada barco. Ao mesmo tempo em que se alia à China, lidera a aliança da civilização judaico-cristã contra a mesma China.

Ele montou o quadrado conservador, composto por Rússia, Israel, EUA e Brasil, ao se aliar com o atual governo de Israel, que detém poder sobre a sociedade em rede criada pelas chamadas mídias sociais e que influenciaram as eleições de Trump nos EUA, a saída da Inglaterra da União Europeia, conhecida como Brexit, e, por fim, as eleições brasileiras, o que deu no que deu.

Vejo o presente atual da ruptura da aliança entre EUA e China como o da “queda do Muro de Berlim” do neoliberalismo. Penso que os grandes problemas mundiais, – aquecimento global, fluxos migratórios, transformações no mundo do trabalho, controle de epidemias, – só poderão ser resolvidos com diálogo entre os povos e ações de longo prazo, o que não combina com o atual estilo político-eleitoral das decadentes democracias ocidentais.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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