27/05/2019

A Vida como um esporte radical

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"Desenvolver a plena atenção, sem julgamentos, através de práticas como a meditação, ajuda a ampliar nosso espaço mental para não sermos vítimas de nossas reações emocionais condicionadas."

No livro “A Mente Alerta”, no capítulo “Você não pode parar as ondas, mas pode aprender a surfar” o autor, Dr. Jon Kabat–Zinn lembra que esta frase, escrita num pôster onde aparecia o yogue Swami Satchitananda sobre uma prancha de surf nas ondas de uma praia havaiana, apreende muito bem o espírito da prática da meditação.

Eu diria também que esta mensagem simples nos coloca diretamente em contato com a natureza “radical” de nossas vidas. Costumo dizer que a vida é como um esporte radical. Temos que estar preparados para as mudanças, os imprevistos e os desafios que sempre surgem. Não temos como fugir. Não temos como parar as ondas, mas podemos aprender a lidar com elas de uma forma positiva e criativa. E para surfar uma onda, escalar uma montanha ou, simplesmente, andar de bicicleta, precisamos desenvolver uma grande capacidade de atenção, receptividade e flexibilidade para responder adequadamente às situações do momento presente.

Imagine um surfista que não tenha atenção, receptividade e flexibilidade para lidar com as ondas que surgem, com seus movimentos imprevisíveis? Imagine um surfista reclamando da onda que não veio como ele esperava, se irritando ou se culpando e enquanto isso, novas ondas surgindo e ele lá indignado e magoado. Com certeza esse surfista, perturbado pelas suas emoções, não conseguiria surfar direito e ainda correria o risco de se machucar.

A mesma coisa podemos falar do alpinista que se irrita com o relevo da montanha que está escalando ou um praticante de vôo livre que não aceita as mudanças dos ventos, perdendo não só a atenção e a concentração como também todo o prazer de estar voando. Quantas vezes nós não aceitamos e entramos em conflito com as mudanças da vida, perdendo nossa criatividade e até mesmo o prazer de estar vivo?

Se quisermos surfar ondas, escalar montanhas ou praticar vôo livre, temos que desenvolver determinadas competências para lidar com os processos imprevisíveis dessas atividades. Com relação à vida é a mesma coisa. Devemos desenvolver determinadas competências emocionais, de forma a nos familiarizar com os elementos perturbadores de nossas experiências e, assim, desfazer as reações inadequadas que nos trazem mais confusão e sofrimento. Com isso, mesmo sabendo que não teremos resposta para tudo, antecipadamente desenvolvemos a clareza e a confiança que poderão nos sustentar nas situações mais extremas.

Preparando-se para o grande vôo

Portanto, é importante nos prepararmos para situações perturbadoras, tanto aquela em que você tem uma decepção com alguém, como para a maior situação perturbadora da vida: o momento da morte.

Nós sabemos que isso um dia vai acontecer, seja a decepção ou a morte, mas mesmo assim não nos preparamos para essas experiências, achando que elas ainda estão longe. Mas, será? É como se você soubesse que um dia vai pular de pára-quedas, mas não sabe quando e fica protelando começar seu treinamento. Então, um dia te colocam num avião e lá em cima te falam: “Vai, pula!”

Aproveitar os momentos em que nossa mente está mais tranqüila e lúcida para contemplar as mudanças que ocorreram, ocorrem ou ocorrerão em nossas vidas e nos familiarizar com elas de uma forma receptiva e flexível pode nos ajudar a expandir nossa criatividade e relaxamento. Desenvolver a plena atenção, sem julgamentos, através de práticas como a meditação, ajuda a ampliar nosso espaço mental para não sermos vítimas de nossas reações emocionais condicionadas.

As mudanças e as ondas não param e se não estivermos prontos para lidar com elas, emoções perturbadoras como o apego, a raiva e o medo podem nos meter em apuros.

Nós estamos num mar que se chama Vida com suas ondas, seus contornos, movimentos e mudanças, assim como o seu fim imprevisível.

Como me disse um amigo surfista: “Quando você está no mar em cima de uma onda, ficar com a mente no passado ou no futuro é perder a onda, a capacidade e o prazer de surfar”.

Mais do que apenas tentar nos manter equilibrados nas ondas da vida, podemos descobrir o prazer dos desafios que aparecem a cada momento, e para um surfista quanto maior a onda mais excitante e divertida a coisa se torna, principalmente se você está se dedicando a um caminho espiritual. Como diz Chogyam Trungpa Rinpoche:

“O que você faria se não houvesse conflito? Isso seria mortal. Lidar com conflitos é precisamente a ideia de trilhar o caminho espiritual. O caminho é uma estrada selvagem e retorcida na montanha, com todo tipo de curvas; há animais ferozes, ataques de bandidos, todo tipo de situação surgindo. No que se refere à ocupação da nossa mente, o caos do caminho é a diversão.” (The Dawn of Tantra).

Mas como em todo esporte radical é preciso se preparar e esta preparação nos pede dedicação e um senso de prioridade. A grande diferença nesta situação é que não temos opção, não temos escolha de praticar ou não o esporte radical da vida, pois já estamos nele desde que nascemos, ou seja, você já está no mar, as ondas subindo, as emoções surgindo, e o melhor a se fazer é encontrar alguém que te ensine como surfar pra não ficar preso em sofrimento nos movimentos do mar da vida e até mesmo aprender a se divertir. Obter esta transformação na forma de viver só depende de nós em nosso treinamento da mente.

“A fonte de todas as dificuldades e conflitos está na mente; portanto, a solução de todas as dificuldades e conflitos está na transformação da mente. Para isso, praticamos a meditação.” Chagdud Tulku Rinpoche - Para abrir o coração – Editora Makara

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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