27/05/2019

Mises e Marx

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"A China vai se firmando na dianteira do crescimento econômico e vai assumindo a liderança da globalização. O país comunista foi capaz de caminhar em direção a reformas que introduziram elementos capitalistas em sua estrutura."

Nas últimas eleições, houve um deslocamento do centro do debate político da polarização entre direita e esquerda para a divisão entre conservadores e progressistas. Por esse motivo, vimos a sexualidade ocupar o espaço que antes pertencia ao campo das tensões entre as classes sociais.

Nessa nova configuração do debate político, os liberais foram atraídos pelos conservadores com a promessa de um governo liberal na economia e conservador nos costumes.

Entre os liberais, venho observando o crescimento do segmento que se intitula anarcocapitalista. São na maioria jovens de classe média, que se beneficiam da inserção do Brasil no mundo globalizado, mas que temem a vida no solo pátrio, devido à escassez de oportunidades de trabalho e à pressão de competição vinda de dentro e de fora.

São jovens que passaram pela vida sem dependerem de nada que viesse do estado. Estudaram em colégios e universidades particulares, viveram cobertos por planos de saúde e tiveram a integridade física e patrimonial garantidas por um sem número de milícias particulares que são os condomínios, clubes e shoppings.

A previdência social contributiva é o único fio que ainda os liga ao estado, e ela está prestes a ser cortada pela reforma da previdência. Agora a nova geração anarcocapitalista vê na bolsa de valores a forma de alimentar a conta individual que garantirá sua aposentadoria.

Os anarcocapitalistas pedem em suas manifestações mais Mises e menos Marx. Eles estão falando de Ludwig von Mises (1881-1973), economista austríaco radicado nos EUA, membro da Escola Austríaca de pensamento econômico, defensor do individualismo e das leis do livre mercado e crítico do socialismo. O papel do estado se resumiria a impedir a violência, o banditismo e a agressão externa.

Karl Marx (1818-1883) foi o pensador nascido na Prússia e radicado na Inglaterra que fez uma crítica consistente do capitalismo e criou as bases teóricas do socialismo.

As duas correntes parecem totalmente opostas, mas é da aliança entre elas que poderá nascer uma alternativa à hegemonia política da extrema direita.

Estamos diante de uma era de grandes transformações. A quarta revolução industrial promete mudanças profundas no mundo do trabalho, nos costumes e nas formas de comunicação, informação e entretenimento.

Ao mesmo tempo, vamos constatando cada vez mais a chamada irrelevância das massas, tanto para a produção quanto para o consumo. As fronteiras se fecham. Constroem-se muros e distribuem-se armas. Uma Nova Idade Média vai se formando sobre as ruínas dos anos de ouro do boom do comércio internacional. Não é a globalização que está acabando com os empregos, mas, sim, a automação da produção.

E, no contrapé do ensimesmamento do Ocidente, a China vai se firmando na dianteira do crescimento econômico e vai assumindo a liderança da globalização. O país comunista foi capaz de caminhar em direção a reformas que introduziram elementos capitalistas em sua estrutura.

Acredito que o futuro do capitalismo depende de algo como a China ao contrário. Os chineses adotaram o lema de “um país, dois sistemas”. Lá, comunistas fizeram reformas capitalistas e tiveram êxito. Aqui, um país capitalista poderia fazer reformas em direção ao socialismo e também ter um país e dois sistemas. Assim, capitalismo e comunismo poderiam conviver ao gosto de cada um. Seria uma livre escolha, o que agradaria os seguidores de Mises, e daria opção para aqueles que se identificam com o socialismo de levarem suas vidas de acordo com ele, o que agradaria os seguidores de Marx.

A China contemporânea nos oferece experiências positivas nos campos da ordem política, da economia e dos costumes. O sistema político se baseia mais no recrutamento de lideranças vocacionadas do que na eleição de líderes carismáticos. A economia combina elementos comunistas e capitalistas de forma eficaz. Do ponto de vista dos costumes, um estado laico tende a se alinhar com o mundo moderno.

Suspeito que, assim como os árabes guardaram para o Ocidente a herança cultural dos filósofos gregos, o que impulsionou o Renascimento europeu do século XV, os chineses guardarão a herança marxista a ser entregue a nós mais à frente, quando tiver passado a epidemia psíquica que vivemos neste momento de aceleradas transformações científicas, econômicas, políticas e comportamentais.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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