25/05/2019

O valor de cada um

Marcelo Guerra Marcelo Guerra
"Meu abacateiro não dá um abacate, mas é a árvore mais exuberante que tenho no quintal."

“Conhecimento do valor humano, Sentimento da dignidade humana, Querer em amor humano, Estes são os mais lindos frutos da vida.”

Rudolf Steiner

Na minha casa tem um abacateiro que plantei há 16 anos. Tinha comido um abacate especialmente gostoso e plantei a sua semente no quintal. Ele cresceu e se tornou uma árvore majestosa, mas nunca deu um abacate. Já procurei orientação de profissionais e de jardineiros amadores, tentei várias estratégias, mas ainda assim ele não frutifica. Diante dessa infertilidade, o conselho mais comum é cortá-lo e plantar outro no seu lugar.

Fiquei refletindo sobre o valor das coisas e das pessoas. Nosso valor essencial, pelo que somos, não parece contar muito. Geralmente o que interessa é o valor pelo que fazemos ou pelo que podemos oferecer. Esse utilitarismo não se restringe a relações profissionais, mas a muitos relacionamentos onde o que deveria prevalecer é o valor pelo que somos.

Lembro-me de um parente afastado do interior. Ele era lavrador, casado há muitos anos, já com filhos adultos. Uma vez sua esposa teve pneumonia e teve que ficar de repouso para sua recuperação. Depois de poucos dias que ele teve que esquentar a própria comida, reclamou com ela:

“Assim, você não me serve.”

É uma história que revela uma ignorância sobre em que deve residir um relacionamento conjugal, mas a sua falta de autocensura revela o que acontece de muito mais sutil em muitos relacionamentos, sejam conjugais ou de outro tipo.

Pais que preferem um filho por ser mais obediente ou obter melhores resultados na escola, também reforçam o caráter utilitário das relações.

Amigos que são escolhidos com base naquilo que podem oferecer são ferramentas e não propriamente amigos. É recorrente a imprensa mostrar o grande número de amigos de jogadores de futebol que estão no auge de sua carreira e comparar com a escassez deles se o jogador perde sua fortuna. Sem churrascos na piscininha, sem amizade...

Obviamente numa relação profissional procuramos alguém que seja capacitado, é um tipo de relação que exige isso. Meu dentista é supercapaz para consertar meus dentes. Quando meu carro tem algum problema elétrico, procuro sempre o mesmo eletricista que sei que entende tudo do assunto. Porém relações pessoais não podem ter a funcionalidade como requisito.

Uma mercadoria tem o seu valor determinado pela sua utilidade e forma a base do valor de troca, ou seja, é a partir de seu valor que se chega ao seu preço. Um ser humano não tem preço e, portanto, não pode ter o seu valor estabelecido pela sua utilidade.

Meu abacateiro não dá um abacate, mas é a árvore mais exuberante que tenho no quintal. Na época da floração, ele fica repleto de flores amarelas e abelhas, que não conseguem poliniza-lo. Sua sombra leva frescor a uma grande área do terreno que tem sido castigado pelos verões cada vez mais quentes que temos enfrentado.

Independente dessas utilidades, não vou cortar meu abacateiro porque fui eu que plantei quando meus filhos e enteados eram pequenos e sua simples presença me traz recordações de um tempo de casa cheia, alegre e barulhenta. Eu gosto dele como ele é. E quando eu quiser abacate, compro na feira no fim de semana...

Por: Marcelo Guerra

Marcelo Guerra é médico homeopata e acupunturista, além de terapeuta biográfico de base antroposófica. Atende em Nova Friburgo e Niterói, e organiza vivências de autodesenvolvimento.

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