29/04/2019

Meditando com a dor

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"Percebi que o problema com o sofrimento não era a dor, mas minha reação a ela. Quando minha mente relaxou com relação as minhas suposições sobre a dor e eu apenas fiquei ali com a dor, não havia mais sofrimento."

Há alguns anos atrás, ao participar de um retiro de meditação longo e intensivo, me deparei com um dos desafios que todo meditador se depara: a dor física. Era a primeira vez que fazia um retiro tão longo e com tantas horas de meditação sentada. Na primeira semana o desconforto físico era tolerável, mas a partir do décimo dia as coisas começaram a ficar mais “sérias”. Meu joelho estava em frangalhos. Mesmo quando não estava sentado meditando meu joelho doía e aquilo estava me preocupando. Eu pensava: “O que está acontecendo com meu joelho? Será que houve alguma lesão grave?”.

Nas sessões de meditação percebia a presença desses pensamentos. E através dessa percepção atenta vi como que a sensação de que algo estava errado perturbava não só minha mente mas, também, produzia um crescente incômodo com a dor no corpo.

Num certo dia, eu perguntei a uma fisioterapeuta que praticava do meu lado no retiro, o que podia estar acontecendo no meu joelho, ela explicou e não parecia nada bom, mas como eu ainda tinha algumas semanas de retiro decidi que não pensaria mais nisso.

A partir desta decisão algo mudou em minha mente e em meu corpo. Com o desenvolvimento da meditação um relaxamento natural trouxe uma certa liberação do sofrimento onde não havia mais a perturbação pela experiência da dor. Havia apenas a dor como um fato natural, como os sons do ambiente, a luz do sol que entrava na sala de meditação, o latido do cão do lado de fora e a respiração. Percebi que o problema com o sofrimento não era a dor, mas minha reação a ela. Quando minha mente relaxou com relação as minhas suposições sobre a dor e eu apenas fiquei ali com a dor, não havia mais sofrimento. Poderia dizer que a dor não era mais dor, mas uma experiência corporal em movimento onde a percepção das mudanças das sensações a tornavam um elemento de despertar a mente.

Os mestres de meditação sabem que um dos maiores apegos que temos é o conforto físico. E que o lidar com o desconforto, a dor ou qualquer dificuldade na prática da meditação pode ser uma grande oportunidade para irmos além de nossas visões errôneas da realidade. Nas palavras de Chagdud Khadro:

“Quando nos deparamos com dificuldades na prática, não deveríamos titubear. Deveríamos, ao invés, restabelecer nossa motivação pura e lidar pacientemente com as dificuldades utilizando quaisquer habilidades que dominemos. Se penetrarmos no âmago da dificuldade, não encontraremos nada aí, nenhuma realidade inerente a não ser o resíduo onírico da experiência relativa. Uma vez que vejamos isso, a paciência cede lugar à confiança.” Chagdud Khadro - “Comentários sobre o Ngondro”

Quando observamos e não cedemos ao impulso de querer mudar a situação, podemos investigar a verdadeira natureza daquela experiência e descobrir sua não solidez e impermanência. Ao fazermos isso, não reafirmamos a visão parcial e ilusória da realidade que temos nos apegado.

A SABEDORIA DA COCEIRA

Por exemplo, quando sentimos uma coceira, instantaneamente coçamos sem muita consciência do movimento e de nossa reação. Mas se tivermos a plena atenção para observar a coceira, sem reagir, veremos que ela é constituída de diversas sensações que mudam e por fim desaparecem por si. Mas nós nunca fazemos isso e nossa reação comum é coçar, o que muitas vezes irrita mais ainda o local da coceira e, o pior de tudo, faz com que nos acostumemos a não tolerar o mínimo desconforto. Quando reagimos a um desconforto procurando eliminá-lo, reforçamos nossa intolerância e fragilidade diante dessas sensações. O mesmo podemos dizer com relação as nossas emoções.

Como diz Tara Bennet-Goleman em seu livro “Alquimia Emocional” (ed. Objetiva): “No caso de uma emoção como a raiva, o fato de sustentarmos a atenção pode nos oferecer outro insigth crucial: se conseguirmos permanecer com a raiva por tempo suficiente, nós a veremos transformar-se em algo diferente – dor, tristeza, qualquer outro sentimento – ou até mesmo se dissolver. O que parecia tão sólido se desintegra, é transformado. A chave repousa em permanecermos com a experiência através de todas as mudanças.”

Se conseguimos permanecer na experiência, sem reagir, vemos que aquilo que pensávamos ser alguma coisa sólida e absoluta se desfaz de forma natural e inofensiva na mente espaçosa da plena consciência.

Talvez a dor, a doença e a situação não mudem, mas a relação com esses fatos pode mudar. Mesmo que a situação externa não seja curada ou resolvida você pode se curar, se resolver e vivenciar os fatos, sejam eles quais forem, de forma receptiva, livre e porque não dizer feliz.

É muito mais útil que sua percepção mude e traga mais espaço e liberdade para viver “o que é”. Essa é a verdadeira conquista. Quando reconhecemos que estamos mirando o alvo errado ao lidar com problemas e redirecionamos todo o nosso tempo e energia na busca de uma conquista e mudança interiores, aí então podemos começar a descobrir o que é paz e felicidade.

Como diz Pema Chodron:

“A paz que estamos buscando não é a paz que desmorona assim que há dificuldade ou caos. Se estamos buscando paz interior, paz global ou uma combinação de ambas, o modo para vivenciar isso é construir a partir da fundação da abertura incondicional para tudo o que surgir.

A paz não é uma experiência livre de desafios, livre de aspereza e maciez; é uma experiência que é expansiva o suficiente para incluir tudo que surgir sem nos sentirmos ameaçados”.

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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