28/04/2019

Governo de desunião nacional

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"O que foi bom para vencer eleições se mostra péssimo na hora de governar. Para governar, é preciso negociar consensos e propor metas de interesse comum."

Em momentos críticos, é comum que países criem governos de união nacional. Em momentos nebulosos, por outro lado, é mais fácil vencer eleições formando um governo de desunião nacional.

Um governo de desunião nacional cria maiorias através da nomeação de bodes expiatórios. A identidade do grupo acaba sendo formada não por uma proposta, mas, sim, pelo ódio ao inimigo comum. Entretanto, fatalmente nesses casos o feitiço acaba sevirando contra o feiticeiro, pois o ódio é excelente para destruir, mas não para construir.

Os governos Lula, por exemplo, independentemente do julgamento que possamos ter de toda a corrupção que aconteceu e desmoralizou a esquerda política, promoveu um momento de união nacional em torno da idéia de reparação das injustiças históricas. Programas como o Fome Zero, Bolsa Família, de cotas raciais nas universidades e Minha Casa MinhaVida, com vários graus de sucesso e frustração, apontavam para a formação de umamaioria através de uma propostaconstrutiva.

O outro lado da moeda é que quando o dinheiro entrou de forma súbita e abundante, o que foi chamado de a maldição dos recursos, os governos do PT souberam distribuir benesses para atores políticos de diferentes matizes ideológicas.

A crise financeira que varreu o mundo em 2008 e chegou por aqui por volta de 2012 acabou com a festa. Uma nova classe média emergiu nos anos FHC com a vitória sobre a inflação e nos anos Lula com o direcionamento dos recursos provenientes do comércio com a China para o pagamento da dívida externa epara o investimento em programas sociais.

O medo dessa nova classe média emergente de retroceder economicamente foi capturado pela extrema direita através de um discurso de ódio. Assim como nos EUA Donald Trump prega construir muros para isolar imigrantes, por aqui a receita é lotar presídios com leis cada vez mais duras, armar a população e estimular a violência contra mulheres, LGBTs, negros e índios.

As redes sociais favorecem o discurso de ódio. O governo não usa as redes para defender a proposta da reformada previdência porque elas não são tão eficientes para construir quanto para destruir.

Assim, está claro que o governo apostou na desunião para se eleger e, vemos agora, também para governar. A desunião se instala em todas as dimensões da formação da identidade psicossocial do indivíduo.

A começar pela dimensão da geração. A reforma da previdência, ao mudar do princípio da contribuição para o de poupança individual, quebra a aliança entre velhos e jovens.

Na dimensão de gênero, o desrespeito com que a mulher foi tratada se reflete hoje no aumento dos índices de feminicídio. Ao não reconhecer que o homem moderno deve cultivar seu lado feminino e a mulher seu lado masculino é regredir na história das relações de gênero.

Quanto à dimensão da etnia, o desprezo pelo negro e pelo índio se manifesta de várias maneiras, seja pela ridicularização dos quilombolas, seja pela ameaça de rever a demarcação e o uso das terras dos povos indígenas, guardiões das reservas florestais, seja ameaçando e perseguindo as religiões afro-brasileiras.

Ao apoiar a precarização dos empregos e manter-se alheio aos desafios advindos das rápidas transformações no mundo do trabalho, aprofunda a desigualdade entre as classes sociais. Ao contribuir para sucatear mais ainda os serviços de saúde e educação, afeta mais os mais pobres, negando-lhes o mínimo de oportunidades para a competição no capitalismo liberal.

No âmbito da religião, ignorar que na constituição brasileira o Estado é laico é outra forma de criar uma divisão entre nós e eles. Vemos a ação política no governo no sentido de doutrinação religiosa tanto no Ministério da Educação quanto no das Relações Exteriores.

Por fim, a ideologia. Este foi o setor mais bizarro. Segundo o discurso de campanha, vivíamos num país comunista, entregue ao marxismo cultural e refém de países comunistas como China, Cuba e Venezuela. Seríamos salvos retornando aos valores da direita e reconhecendo a legitimidade da ditadura milita. A esquerda foi, então, demonizada e culpada por todos os problemas do país.

Dessa forma, plano por plano das dimensões que formam a identidade psicossocial do indivíduo, foi-se criando as bases do governo de desunião nacional centrado na criação de inimigos comuns. Ótima estratégia para vencer eleições em tempos nebulosos.

Porém, o que foi bom para vencer eleições se mostra péssimo na hora de governar. Para governar, é preciso negociar consensos e propor metas de interesse comum.

Quem será capaz de reunir o Brasil?

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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