26/04/2019

Amigo é coisa pra se guardar

Marcelo Guerra Marcelo Guerra
"Quando temos um amigo pela primeira vez, criamos uma nova imagem do que são os limites. "

Segundo um amigo, a vida é como rapadura: é doce, mas não é mole, não!

Nos momentos mais duros, em que precisamos de um ombro amigo, muitas vezes é a um amigo da infância ou da adolescência que recorremos. O que torna tão especial uma amizade que foi construída há tantos anos? Numa olhada superficial, o fato da longa duração da amizade de infância já a torna especial. Mas há algo mais, muito mais!

Desde o ano passado, os colegas de faculdade temos nos encontrado regularmente, de início para comemorar os 30 anos de formados, e depois para nos conhecermos melhor. Numa turma de 90 alunos, num espaço tão amplo como o Fundão, é fácil haver dispersão em pequenos grupos, quase guetos. E agora, depois de 30 anos de ausência, tem sido possível conhecer verdadeiramente os colegas e, a partir desse conhecimento, formar verdadeiras amizades.

Quando nos encontramos, sempre surge a nostalgia de um tempo em que estávamos deixando a juventude e entrando na vida adulta, com o peso de suas responsabilidades. A partir de então, cada escolha teve consequências que até hoje temperam minha vida, sejam elas doces ou amargas. Essas lembranças são como peças de um quebra-cabeças da minha própria biografia que vão abrindo novas paisagens à minha visão. Esses fatos encontram ressonância no trabalho biográfico.

Na metodologia do trabalho biográfico, estudamos o desenvolvimento do ser humano com um viés evolutivo, em que cada um vai tomando contato com sua essência e cada vez a expressa mais, o que se chama “individuação”. Nesta metodologia, dividimos didaticamente a vida em períodos de sete anos, os chamados “setênios”. No primeiro setênio, de 0 a 7 anos, a criança tem uma dependência e ligação quase exclusiva de sua família. No segundo setênio, de 7 a 14 anos, a criança divide essa ligação com a escola. Ela vive em dois mundos diferentes, a casa e a escola. Ela depende dos cuidados e autoridade dos pais e das professoras e professores.

É neste segundo setênio que a criança aprende a criar amizades, encontrando outras crianças que têm os mesmos interesses. Através dessa identificação, a criança cria um vínculo que ela escolheu e torna-se amiga de alguém. Um amigo que vai escutar suas reclamações sobre seus pais, suas dificuldades com os outros colegas, suas alegrias simples, suas brincadeiras.

Quando temos um amigo pela primeira vez, criamos uma nova imagem do que são os limites. Se até então, os limites eram impostos pelos pais e/ou professores, agora os limites são parte de um acordo explícito ou implícito entre dois amigos, porque não queremos magoar um amigo nem ser magoados por ele. Este é o germe do respeito que deve haver em todos os relacionamentos. E que levamos para a vida adulta para desenvolvermos no respeito entre colegas de trabalho, no respeito na vida amorosa e por aí vai…

Nesta fase, a criança ainda vê o mundo sem as lentes das ideologias (que ela vai buscar no próximo setênio, durante a adolescência) e pode ver o mundo de uma forma ingênua, mais carregada de fantasia, experimentando-o e saboreando-o de uma forma própria.

A adolescência simboliza a queda do paraíso, em que as fantasias e essa visão ingênua dão lugar à crítica e à divisão, mas também à busca por identificação com determinados grupos.

Na vida adulta, quando nos defrontamos com situações mais duras, o amigo que remonta à infância e adolescência é aquele porto seguro, o que traz aconchego e confiança, que nos permite dissolver essa dureza e perceber novamente a doçura da rapadura que é a vida.

Por: Marcelo Guerra

Marcelo Guerra é médico homeopata e acupunturista, além de terapeuta biográfico de base antroposófica. Atende em Nova Friburgo e Niterói, e organiza vivências de autodesenvolvimento.

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