22/04/2019

Crônica para um Brasil conservador

Dib Curi Dib Curi
"O problema não é sermos conservadores. O problema é não sabermos distinguir entre conservadores e reacionários. "

Desde à época da Eleição de Trump nos EUA, do crescimento da ultra direitista Le Pen na França, do Brexit na Inglaterra e das manifestações pelo impeachment de Dilma, entre outros fatos políticos contemporâneos, percebemos, nas entrelinhas dos eventos históricos, um movimento de maré oceânica em direção à uma visão de mundo mais conservadora, por vezes até reacionária, visão esta que deverá nos nortear pelos próximos anos.

O fato é que, no Brasil, 58 milhões de brasileiros votaram em Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais. Isto significa que a maioria destas pessoas não só concorda com a visão de mundo do atual presidente, mas sentem e reagem à vida da mesma maneira. E não se trata de um fenômeno apenas brasileiro, mas mundial, algo emocionalmente universalizado, sem chance de ser contido por qualquer resistência organizada, pois são as placas tectônicas da história que estão se movendo.

Ao meu ver, existe um mistério aí, algo obscuro mesmo, como um conteúdo retido no nosso inconsciente e que precisa se manifestar. Talvez, tenha a ver com aquilo que o psicanalista Carl Gustav Jung chamou de sombra, algo que evitamos lidar, mas sem o qual não podemos crescer.

O fato é que o fortalecimento da extrema direita no mundo traz uma mensagem muito clara para todos nós, um recado de desesperança nas utopias e um certo desdém pela humanidade e pelos humanismos, desdém muitas vezes repleto de ironia e de ressentimento, quase sempre autorizando novos conflitos e energizando moralismos, polarizações e autoritarismos.

Creio que o momento é de um expurgo necessário daquilo que de pior que o ser humano traz em si, reprimido pela hipocrisia política, pela face idealizada das religiões e o racionalismo polido do politicamente correto. Tenho certeza de que estas emoções durarão pouco tempo. Respeito a indignação de muitos amigos mais sensíveis mas, felizmente, retorno sempre à visão de que se trata de um breve pesadelo histórico, momento febril de delírio, acompanhado - muitas vezes - de vômito e diarreia emocional para a limpeza do sistema. Enquanto isto, para não perdermos conquistas civilizatórias, é necessário mantermos nossas lutas pontuais na questão dos direitos adquiridos, na defesa das políticas públicas essenciais e na questão ambiental.

Creio que a questão mais problemática não é o fato de sermos conservadores, pois isto é legítimo e grandes pensadores também foram conservadores de alguma forma como Platão, Hobbes, Burke e Habermas, entre outros. A questão mais problemática é não sabermos distinguir os limites entre sermos conservadores ou sermos reacionários. Pois ser reacionário já comporta uma intolerância excludente ou algum preconceito como justificativa de violência contra os que pensam diferente.

Neste sentido, creio estar vendo um adoecimento do juízo de parte da população brasileira, que sofre de um tipo de esquizofrenia que denomino como a “Síndrome dos Neurônios Duplos”. Tal síndrome parece ser mentalmente incapacitante, pois faz as pessoas olharem o mundo como se existissem apenas dois lados nele: o certo e o errado, a verdade e a mentira, a direita e a esquerda, por exemplo. Assim, os indivíduos acabam por se identificar demais com um lado apenas, tornando-se sectários, fanáticos e fundamentalistas, crendo ser possível extinguir a existência do outro lado, o que torna a sociedade ainda mais conflituosa.

Não compreendo como qualquer coisa pode ter somente um lado. Como seria uma mesa só com o lado direito? Acho lamentável o julgamento, a censura ou a tentativa de cerceamento da liberdade de pensamento e das escolhas políticas ou religiosas, principal características de uma sociedade democrática, livre e diversa. Neste sentido, permaneço um humanista e um republicano convicto.

Acredito que seja necessário uma visão de mundo mais madura para sabermos valorizar as contribuições positivas da direita e da esquerda para a História da Humanidade. O acesso às divisões superiores do saber se dá somente pelo estudo, coisa que não fomos muito estimulados a fazer no Brasil, pois preferimos seguir a lógica mercantil dos cifrões, nossos incansáveis desejos e medos ou a visão interesseira dos poderes políticos, quando não preferimos a zona de conforto de nossas opiniões e pendores. No fim das contas, é preciso compreender que a Vida não é uma reta com dois lados, mas um círculo com infinitas perspectivas. Está bem complexo viver neste tempo.

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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