24/02/2019

Jerusalém ou Belém?

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"Ao invés de Jerusalém, deveríamos focar nossa política externa em Belém, capital do Pará, que está situada próxima ao estuário do rio Amazonas, (...) de cuja gestão racional depende a tarefa de impedir que a temperatura do planeta aumente mais que 1,5 gra"

Os grandes ciclos históricos são explicados pela combinação de duas ciências: a climatologia, o estudo do clima, e a demografia, a ciência que estuda a evolução das populações.

No passado, a alternância entre períodos de resfriamento (glaciações) e de aquecimento causou o deslocamento cíclico de populações.

O novo governo brasileiro, ao ameaçar retirar o País do Acordo de Paris sobre o Clima e ao se retirar do pacto da ONU sobre migrações, nega realidades óbvias para se dedicar a construir as relações internacionais do Brasil em bases míticas. Pediram mito, tomem mito.

A negação pelo novo governo do Antropoceno e dos inevitáveis movimentos migratórios dele decorrentes vem acompanhada de outra negação, a do não reconhecimento da desastrosa administração das potências ocidentais de suas ex-colônias (genocídio indígena e escravidão africana) e das necessidades de reparação das injustiças históricas dela decorrente.

O Ocidente impôs seu modelo de progresso baseado na sociedade industrial pelos quatro cantos do mundo. Desde então, as sociedades deixaram de ser rurais e estacionárias para tornarem-se urbanas e de crescimento populacional progressivo.

Nas três últimas décadas, com a aceleração da globalização devido à evolução dos meios de transporte e de comunicação, milhões de pessoas, mais notadamente na Ásia (China e Índia), foram retiradas na pobreza e ingressaram na classe média.

De forma mais modesta, entre 2003 e 2014 o Brasil também viu uma parcela significativa de sua população sair da pobreza e entrar na classe média. Isto foi consequência da globalização, que agora está sendo denunciada pela ultradireita como sendo nociva para o País.

Em resumo, a nova onda conservadora de direita foca seu discurso mais no medo da classe média de retroceder do que na necessidade de resgatar os pobres da miséria, o que sempre esteve à frente de todas as plataformas eleitorais desde o início da redemocratização na década de 80. Pela primeira vez desde então venceu o candidato a presidente mais identificado com os ricos do que com os pobres.

Além do mais, com a prosperidade trazida ao País pela globalização veio também a chamada “maldição do petróleo”. Sempre que um país pobre recebe muito dinheiro repentinamente por causa do boom de uma commoditie, como foi o caso brasileiro com o petróleo e a soja, a corrupção corre solta e a coisa desanda. Aconteceu com a Venezuela, aconteceu com o Brasil. Isto enfraquece ainda mais o discurso da esquerda de resgate social dos mais pobres.

O atual governo brasileiro nega a necessidade de um esforço de entendimento e cooperação entre as nações, mas nem por isso mostra-se independente. Ao demonstrar subserviência ao estilo político e à visão de mundo do presidente norte-americano Donald Trump, a política externa brasileira vai se aliando à onda conservadora de ultradireita nacionalista, protecionista, xenofóbica e intolerante nos costumes.

A Cristandade Ocidental encontra-se diante de um desafio. Depois de dois séculos de domínio econômico, político e cultural, o Ocidente vê a humanidade retornar ao mundo sinocêntrico (centrado na China). A questão é demográfica. Quanto mais rica uma civilização, menos filhos ela tem. Isto parece ser uma forma de impedir o domínio definitivo de uma parte sobre o todo. O mundo sinocêntrico era bem mais rico e desenvolvido do que o ocidental antes dos descobrimentos, do colonialismo europeu e das revoluções industriais.

Ao levantar a possibilidade de transferir a embaixada brasileira para Jerusalém e ao justificar essa mudança com argumentos de ordem religiosa, o governo brasileiro, segundo a visão de nosso novo chanceler, pretende seguir a liderança de Trump numa nova cruzada em defesa da Civilização Ocidental. E isso vai da geopolítica até os costumes. Para que haja salvação e aumento da população, é preciso combater o homossexualismo, proibir o aborto e trazer a mulher de volta ao lar para parir e criar os filhos.

Ao invés de Jerusalém, deveríamos focar nossa política externa em Belém, capital do Pará, que está situada próxima ao estuário do rio Amazonas, porta de entrada da Floresta Amazônica, de cuja gestão inteligente e racional depende a tarefa humana de impedir que a temperatura do planeta aumente mais que 1,5 graus acima dos níveis pré-industriais. O Brasil é uma potência ambiental e é a partir dessa realidade que deveríamos construir nossa política externa.

Existem locais estratégicos para a humanidade e que devem, por isso, ser alvo de interesse e atenção de todos os países do mundo. Jerusalém, por sua importância histórica e geopolítica, é um desses lugares. Ela está situada numa grande encruzilhada geográfica. Belém do Pará, por controlar o acesso fluvial à Amazônia, também é de grande interesse para toda a humanidade.

Na quarta revolução industrial, a tecnologia 5G faz com que as coisas dialoguem entre si. A geladeira com o supermercado, o coração com a cardiologia, um carro autônomo com outro, uma face com a segurança pública. É uma nova espécie de animismo, o começo de uma subjetividade das coisas.

Sem essa tecnologia toda, nossos índios amazônicos conversam com cachoeiras, árvores, animais e antepassados. Eles já sabem há muito tempo que tudo está interligado.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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