22/02/2019

O amanhecer da Cosmopolítica

Dib Curi Dib Curi
"O ser humano, profundamente frágil e desprotegido, tornou-se presa fácil das ideologias da ambição e da luta, que perseguem vãs esperanças protéticas para seres alienados de si mesmos."

Estou cada dia mais convicto de que a consciência das pessoas determina a realidade que elas vivenciam. Também estou certo de que existe um grande poder criador na nossa consciência, provado, entre outras coisas, através dos sonhos que temos onde, de olhos fechados, somos capazes de criar universos e estórias magníficas.

A questão é que a consciência humana e sua percepção tem sido alienada de seus poderes, aprisionada e servil às ideias oficiais, através da força das ideologias e das crenças que lhe são subjacentes.

Muitas vezes, pensamos no jogo do poder, através de uma geopolítica de interesses. Começo a pensar em algo maior ainda, numa cosmopolítica, que seria a ciência de considerar a construção social como algo que inclui muito mais variáveis do que aquelas que consideramos atualmente. Se o ser humano é filho da Terra, neto do Sol e bisneto da Galáxia, nossos ancestrais devem ter muito o que “dizer” sobre nós. Tal afirmação estaria na linha das palavras de Shakspeare em 1600: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”

A questão é que a nossa História nos fez demasiado limitados e bitolados pelas ansiedades do jogo do poder. Sempre existiu uma ideologia principal e sua contra ideologia, e esta luta jogou uma cortina de fumaça em nossa verdadeira identidade, envolvida numa competição ensandecida. Tal competição suscita emoções contritas e estas emoções nos afastam da percepção correta do real. Nos tornamos cegos.

Sem dúvida, a base de tudo isto são as crenças e ideologias. A ideologia é um grupo de ideias que busca legitimar as formas e os interesses dos poderes constituídos, convencendo as pessoas da superioridade de um jeito de viver ou interpretação da Vida.

Quanto às crenças, desde o início da nossa Era, uma ideologia programou nossas mentes para uma ruptura com as visões de mundo da antiguidade arcaica; o paganismo, o sagrado feminino, as ideias panteístas, a metempsicose, os deuses múltiplos e as forças espirituais da natureza. O cristianismo nos trouxe, em substituição, a crença de que a morte é o castigo da Vida, o desencantamento com o mundo, a ideia de que Deus é homem, que é separado de nós e que o ser humano está em pecado, culpado pela separação. Isto determinou o funcionamento e os afetos da consciência humana, tanto nos seus aspectos psicológicos como sociais.

Mais tarde, com o advento do Iluminismo, surgiu uma nova Razão, diferente da Razão grega, que buscava a origem e o fim das coisas para melhor situar o ser humano na ordem do Universo. A nova ideologia privilegiava a Razão como um poder, retirando do sentimento e da intuição qualquer prerrogativa. Surgiu assim a separação definitiva entre o sujeito e o objeto, gerando o protótipo do famoso dito popular: “Amar as coisas e usar as pessoas” e não o contrário.

A nova Razão desejava apenas compreender o Universo para ter poder sobre ele. O que esperar de um humano vazio, afastado de sua divindade interior, senão as ideias positivistas do progresso material, da indústria, do utilitarismo, ideias amplamente apoiadas pela face protestante do cristianismo? O humano criador de mundos esqueceu-se de si mesmo, aprisionado por um de seus mundos criaturas.

Assim, o ser humano foi se alienando de sua face criadora espiritual, até perder completamente a noção da sua comunhão viva e sensciente com o Cosmos. Com o fim das chamadas meta-narrativas, estava preparado o terreno para o homem esvaziado de sentido íntimo e para um mundo exclusivamente materialista e objetificado, voltado para o domínio da natureza, através do trabalho, da produção e do consumo. O ser humano só reconheceria a felicidade pela posse de bens materiais, o ter ao invés do Ser.

Com a quebra do sentido do divino pertencimento, abriu-se espaço para o complexo ser humano individual, separado de tudo, em permanente conflito consigo mesmo e lutando contra a corrente. Frágil e desprotegido, tornou-se presa fácil das ideologias da ambição e da luta, que perseguem promessas de esperanças protéticas para seres alienados.

Não existe maneira de mudar a sociedade sem mudar as pessoas, suas visões e desejos. Os atuais valores humanos são apoiados em crenças e alicerçados em ideologias sociais. Além destas, está o milagroso Universo vivo e consciente, aguardando a confissão de nossa fragilidade e vazio de divindade, para sermos permeados com a Verdade, dando início aos tempos aguardados da plenitude humana sobre a Terra.

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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