28/01/2019

A coragem do novo

Ricardo Lengruber Ricardo Lengruber
"A novidade passa. O novo permanece. Prevalece."

Há uma diferença entre “novo” e “novidade”. As palavras são parecidas. Parecem a mesma coisa, mas, dependendo do contexto, são profundamente distintas. Por vezes, antagônicas, até.

Novidade é a notícia no jornal. É uma insana busca de ineditismo. Essa rotina desenfreada que inaugura algo sempre. É a sanha permanente por algo que não existe ou que somente eu tenho. Ou, ainda, algo que eu seja o primeiro a inaugurar.

É o modelo recente de telefone. É o consumo que exige experiências diferentes todos os dias. É o afã de estar na frente. De ter mais potência. De saber-se em dia com uma agenda ditada pela correria.

É o último disco do artista. É essa onda descolada que demanda sintonia. Que espera saber de tudo, em tempo real. Que aguarda concordância, mesmo quando há questões a serem debatidas.

É a pessoa de quem se enamora. É o desejo. É tornar as relações humanas relações de consumo.

Novo, todavia, é diverso de novidade. Parecem-se. Confundem-se. Mas distinguem-se na essência. Na visão de longo prazo. Naquilo que fica. No que torna o novo um elemento ausente da novidade.

É o que faz da notícia uma revolução, que a tira da primeira página e adensa nas colunas de opinião; nas distintas e conflituosas páginas de análises. Que a faz deixar de ser ocorrência para ser acontecimento. Que a tira do pedestre dia a dia do fato para alçar espaço na rara experiência da radicalidade.

É o que a tecnologia é capaz de mudar nos comportamentos. Não é a lâmpada em si, porém a luz. Não é o computador, mas a razão. Não são o laser ou os bits, antes a música. É a inteligência (que nunca é somente natural ou simplesmente artificial). Nunca.

É o que o artista e sua obra ajudam na construção de consciências. Que tornam possível refletir para além do óbvio. E que inauguram culturas novas, rompem com o dado ou o ressignificam.

É o que fica depois do beijo. É o que transcende o corpo - embora dele nunca se emancipe. É o que torna o corpo um espaço sagrado da existência. É o que o significa; o dignifica. É o que os românticos chamam de amor.

A novidade termina no lixo. Encerra-se no esquecimento. Naquele limbo em que desuso e enfado se encontram.

O novo, entretanto, tem seu destino nos livros de História e nos álbuns do coração.

A novidade passa. O novo permanece. Prevalece.

Novidade tem a ver com lançar, estrear, conquistar. Novo tem significado irmão de inovar, renovar, transformar e criar.

Não adianta inaugurar um dígito diferente no calendário se não houver, para além da novidade do ano subsequente, a coragem de torná-lo essencialmente novo.

Por: Ricardo Lengruber

Ricardo Lengruber é professor, doutor pela PUC Rio e membro da Academia Friburguense de Letras. Leciona História e Filosofia na Universidade Cândido Mendes e nas Faculdades Bennett.”

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