28/01/2019

Natal ideológico

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"Durante as festas, não crie mais confusão. Esclareça as ideologias e dispute alianças."

Chega o final de ano e é hora de reunir parentes e amigos em volta da mesa para os festejos. Troca-se brindes e abraços, balanços e votos de felicidade. Mas é também a hora de rever desafetos, de recompor velhas mágoas e de tentar esquecer dissabores e traições. Muitos adoram esta época, outros detestam.

Este final de ano promete ser especial por conta da cisão ideológica promovida pela campanha eleitoral de 2018.

É curioso notar que a palavra ideologia assumiu por parte da direita, vencedora do pleito, a conotação de algo falso, tendencioso, que atrapalha o desenvolvimento do país e causa cizânia na sociedade. Para a direita, bom mesmo seria não ter ideologia.

Bem, sem ideologia viramos robôs. Aliás, foram eles e seus disparos nas redes sociais que venceram as eleições.

A palavra ideologia tem uma história. Surge no século XVII no contexto do iluminismo francês querendo dizer o conhecimento das ideias. Apropriada pelo marxismo, passa a se referir ao que turva a consciência da classe trabalhadora da exploração que ela sofre, passando a ser sinônimo de ideologia burguesa. Mais tarde, dentro do próprio marxismo, volta ao seu sentido original de estudo e conhecimento das causas, formas e consequências das ideias que temos sobre como a sociedade deve funcionar em termos econômicos, políticos e comportamentais.

Voltando à nossa mesa natalina, olhando o entorno notamos que entre nossos avós, pais, irmãos, tios, primos e amigos existem diferentes tipos ideológicos. Porque um primo é liberal, um avô é socialista, uma tia é uma religiosa conservadora e o pai é da direita que apoia ditaduras? Tudo junto e misturado na mesma família.

Os seja, porque cada um de nós tem uma ideologia diferente?

Perguntei ao Google e ele me apresentou a uma pesquisa neurocientífica que tenta explicar a diferença do funcionamento do cérebro de conservadores e progressistas. Em experiências com neuroimagem (ressonância magnética), viu-se que no cérebro dos conservadores predomina a atividade da amígdala, uma estrutura do sistema límbico que guarda a memória afetiva das experiências e torna a pessoa sistemática, persistente e em busca de sentido para a vida. Já nos progressistas, a estrutura que predomina é a do giro cingulado anterior, um alarme biológico que lida com a experiência de contradição entre o que de sente e o que se pensa. Progressistas são mais abertos às novidades, lidam melhor com as contradições e são mais tolerantes à falta de sentido.

Acho que isto explica o fato de os conservadores serem seres nostálgicos que desejam retornar a um tempo ideal que está no passado, enquanto que os progressistas sonham com uma utopia em tempos futuros.

Mas o que explica a divisão entre esquerda e direita? Não encontrei resposta em pesquisas semelhantes, mas faço minhas conjecturas.

Os progressistas têm a parte anterior do cérebro mais ativa. Progresso é futuro, avanço, para frente. Progressistas de direita são liberais e progressistas de esquerda são socialistas. Os conservadores têm a parte posterior do cérebro mais ativa. São ligados ao passado, são retrógrados e conservam o que já passou. Conservadores se dividem em conservadores religiosos e conservadores políticos.

Existe também os tipos extremos. Anarquistas podem ser de direita (anarcocapitalistas e libertários) ou de esquerda (anarquismo comunista). Os fascistas reúnem os conservadores políticos e religiosos extremados. O neoliberalismo não deixa de ser um extremismo liberal. O conservador religioso, se radicalizar, torna-se um fundamentalista. A extrema direita e a extrema esquerda pregam métodos autoritários.

Então, são quatro tipos centrais (liberal, socialista, conservador político e conservador religioso) e seis tipos extremos (anarquista, fascista, fundamentalista, neoliberal, extrema-direita e extrema esquerda). Dez tipos ao todo. Muitos deles sentados em torno de sua mesa de Natal, rosnando um para o outro, e, muitas vezes, estragando a festa. O que fazer?

A saída é compreender que esses tipos fazem alianças ou se repelem de acordo com as circunstâncias históricas. Por exemplo, liberais e socialistas já se uniram na socialdemocracia. Religiosos se encontraram com socialistas na Teologia da Libertação. Comunistas e liberais já se uniram para derrotar o nazifascismo.

Lula no auge dos melhores momentos da economia foi o artífice de uma grande união política que englobou todos os tipos ideológicos. Foi um feito. Agora, o novo presidente, que se elegeu propagandeando uma ideologia de extrema direita, reúne liberais e conservadores, isolando os socialistas.

Durante as festas, não crie mais confusão. Esclareça as ideologias e dispute alianças.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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