26/01/2019

A energia das mulheres na renovação do mundo

Dib Curi Dib Curi
"A atual violência contra as mulheres é uma manifestação das enormes dificuldades e conflitos que o homem tem para lidar com seus próprios aspectos femininos reprimidos."

O mundo vive uma epidemia de incompreensão em relação ao feminino. Creio que a grande maioria dos nossos problemas atuais pode ser atribuída a uma falta total de integração da energia espiritual feminina.

A quantidade de casos de violência contra a mulher, os inúmeros estupros e o preconceito contra a homosexualidade por ela tornar tênue a linha entre sexos são exemplos de incompreensão da energia feminina e o exclusivismo das motivações masculinas.

Em tempos imemoriais, era característica do mundo matriarcal o Amor no centro e a compreensão do erótico além do sexual. A atitude cultural masculina sofreu um grande fortalecimento à partir do IV século da nossa era, tanto pela hegemonia romana, quanto pela dominação ideológica judaico-cristã. Sabemos, por exemplo, que na Grécia arcaica, a adoração por Afrodite (deusa do Amor) era muito maior do que a adoração por Ares (deus da guerra). Em Roma, isto inverteu-se com o deus da guerra (Marte) tendo muito mais templos do que a deusa do Amor (Vênus). Este é também o período da substituição do sacerdócio pagão feminino pelo sacerdócio cristão masculino.

Na antiguidade, a maioria das atividades práticas eram patrocinadas por deusas. A deusa do Amor (Afrodite), Athena (deusa da sabedoria/estratégia), Hera (deusa do lar), Artemis (da natureza) e Demeter (das plantações). No Egito, a força primordial do Universo era NUM, energia masculina e feminina. Ainda na Grécia, a deusa primeira era a Terra (Gaia) e tudo tinha se originado dela. Só muito mais tarde o Deus primordial passou a ser homem.

A energia feminina é diferente da masculina e foi muito podada, submetida e corrompida pelo mundo masculino, principalmente, no seu erotismo sagrado, na sua fertilidade múltipla e na sua capacidade de criação de horizontes, muito além da lógica dos homens.

Trata-se de uma luta pelo poder, mais fundamental do que a luta de classes proposta por Karl Marx. A atual violência contra as mulheres é uma manifestação das dificuldades que o mundo masculino tem de lidar com seus aspectos femininos reprimidos. O masculino desequilibrado projeta no feminino a agressividade que não consegue escamotear dentro de si mesmo, por lhe faltar a compreensão da mulher, o acolhimento e intuição criativa, fonte da renovação da vida. A incompreensão ou o medo do poder sinuoso feminino transforma-se em julgamentos toscos ou agressividade, já à partir da adolescência dos meninos nas brincadeiras e nos rituais efeminados, como jogar futebol vestidos de mulher ou o bullying aos meninos mais sensíveis ou delicados.

Apesar da hegemonia da energia masculina, muitas mulheres revelaram a verdadeira liberdade e poder feminino, tão temido pelos homens controladores. Citaremos algumas mulheres da antiguidade: Começamos por Hécate, a deusa primordial dos mistérios e encantamentos, dimensão perdida na nossa sociedade submersa na dominação incrédula do macho básico e na sua ironia à estas virtudes do Ser. Hécate era descendente dos Titãs, portanto não controlada pelo deus homem Zeus. O grande poder de Hécate gerou o sentido atual da terrível palavra hecatombe. Também tinha atuação no destino, pois dispensadora de glórias e prosperidade. Após o advento do patriarcado, foi considerada patrona das bruxas, todas mortas durante a inquisição. Hécate era mãe de Circe e avó de Medéia, duas mulheres de grande poder. A energia poderosa das mulheres sagradas, totalmente sintonizadas com a Fé das coisas, influenciou muitas mulheres da antiguidade.

Continuamos com Pandora, a primeira de todas as mulheres. Ela trazia em seu ventre a esperança de renovação da humanidade, embora esta esperança pudesse ser convertida em desgraças. Outra grande mulher foi a pitonisa Fenomoi, a primeira grande sacerdotisa virgem de Apolo, que através das palavras trazia o sentido do mundo, daí a palavra fonema. Também a princesa Ariadne, capaz de retirar os homens do labirinto de suas repetições e salvá-los do sacrifício de si mesmos. As sábias Aspásia e Diotima, que foram grandes inspiradoras de Péricles e Sócrates. E a inesquecível Antígona, mulher forte e justa, símbolo maior da resistência feminina, que pagou com a vida, desafiando os poderes do mundo por suas convicções sobre o justo e o injusto. Com a morte de Antígona, o tempo erótico dos Mitos foi substituído pelo tempo racional da História. A razão utilitária masculina do Estado subjugou a intuição ética feminina da Terra. As consequências nós sentimos hoje.

A renovação do mundo virá pelo renascimento da verdadeira energia espiritual feminina, pois cabe a ela - fecundada pelo Amor - gestar e parir os novos mundos. Mas a mulher deve se livrar do domínio masculino para compartilhar com ele o poder, as motivações e os objetivos da sociedade.

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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