17/12/2018

Três ideias para a esquerda

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"Foi preciso encontrar bodes expiatórios. Este ano, a culpa de todos os nossos males recaiu sobre o marxismo cultural e a China maoísta."

Passadas as eleições que conduziram a direita ao poder no Brasil, sugiro três ideias para auxiliar a esquerda num processo de reavaliação e reformulação.

As eleições mostraram que o eleitor está buscando lideranças que transpareçam sinceridade e autenticidade, que falem mais com o coração do que com a razão e que saibam captar os sentimentos difusos de insatisfação.

Foi preciso encontrar bodes expiatórios. Este ano, a culpa de todos os nossos males recaiu sobre o marxismo cultural e a China maoísta. O marxismo cultural seria culpado pela globalização, pelo discurso das mudanças climáticas, pela doutrinação comunista e darwinista nas escolas e pela variedade de identidades de gênero, etnia e religião. Já a China maoísta ameaçaria comprar o Brasil e, assim, deveria ser isolada como se não dependêssemos do nosso maior mercado importador para sobreviver.

O que mais impressiona é que essa plataforma tosca atraiu liberais e anarquistas (a juventude anarcocapitalista/ libertária) para uma aliança eleitoral com os conservadores.

Trago, então, três ideias para a esquerda passar do imobilismo e da postura reativa para uma atitude proativa e propositiva.

1. Crítica do capitalismo

Uma política de esquerda não deve se contentar em administrar os problemas do capitalismo, ela tem a obrigação de criticar o capitalismo em seus fundamentos. Para isso, a esquerda não pode deixar de lado o pensamento de Karl Marx. Ele notou que o capitalismo possui contradições que o levarão a apresentar crises cíclicas e que resultarão inexoravelmente na sua autodestruição.

Em resumo, Marx diz que o lucro depende da mais-valia, ou seja, da parte não paga aos trabalhadores. Se, parte do lucro é reinvestida no aperfeiçoamento da tecnologia, e esta, cada vez mais, destrói os postos de trabalho, chegará o momento que não haverá mais trabalhadores para comprar uma produção cada vez maior, o que causará crises de abundância, ou seja, recessão econômica. A resposta do capitalismo a essa tendência é sempre no sentido de expansão crescente e contínua da economia, o que esbarra em limitações ambientais e em conflitos geopolíticos por acesso a recursos e mercados.

No alvorecer da quarta revolução industrial, quando algoritmos e robôs comandados por inteligência artificial vão assumindo os postos de trabalho, a autodestruição do capitalismo prevista por Marx parece algo lógico e plausível. A própria direita vem aventando a possibilidade programas de renda mínima como solução, o que significaria a libertação da humanidade do trabalho maçante e repetitivo. Assim, de forma pacífica, o capitalismo poderá, num futuro próximo, ceder seu lugar ao socialismo.

2. Contraposição à globalização conservadora

No século XIX, a globalização capitalista e liberal atingiu seu apogeu. O período das duas Guerras mundiais foi no sentido oposto. No pós-Segunda Guerra Mundial, o internacionalismo proletário do bloco comunista disputou o mundo com o Ocidente. O capitalismo acabou vencendo a quebra de braço com o comunismo através da separação da Rússia da China e da atração desta para a esfera capitalista.

Os asiáticos inundaram o mundo com mão de obra e produtos baratos, o que enfraqueceu o poder de barganha dos trabalhadores nos quatro cantos do planeta, dando início ao período de desregulamentações do comércio, das finanças e das relações trabalhistas chamado de neoliberalismo.

A crise de 2008 encerrou esse ciclo e a partir daí começaram a entrar em cena os perdedores da globalização, o grupo de populações do interior dos principais continentes (Eurásia e Américas), ligados à antiga indústria da segunda revolução industrial (petrolífera, siderúrgica, automobilística, agronegócios) e que perderam seus postos de trabalho para os asiáticos. A estes interessa uma ideologia isolacionista (America first), nacionalista e xenófoba. Interessa também negar as evidências das mudanças climáticas causadas pelo aquecimento global, pois temem o declínio da indústria baseada na queima de combustíveis fósseis.

3. Reedição da aliança que derrotou o nazi-fascismo

O momento atual lembra 1914, quando um longo período de globalização econômica foi bruscamente interrompido por uma reação também conservadora.

A derrota da Alemanha e seus aliados nas duas Grandes Guerras Mundiais só foi possível a partir da aliança entre liberais, marxistas e anarquistas.

Essas três vertentes são herdeiras dos ideais expressos no lema da Revolução Francesa. Os liberais prezam pela liberdade. Os marxistas priorizam a igualdade. Os anarquistas não toleram a interferência do estado em suas vidas.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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