15/12/2018

A cama de Procusto e a História dos poderes

Dib Curi Dib Curi
"A disputa pelo poder sempre se deu através da tentativa dos poderosos de controlar e padronizar pensamentos e rotinas, pois a melhor iniciativa de controle social é o controle sobre a mente das pessoas"

A luta pelo poder sempre se deu, principalmente, através da necessidade de controlar, dominar e colonizar os territórios e a mente das pessoas, seja pela força das armas ou das ideias.

Todos os poderes em todos os tempos buscaram tal objetivo. Se não fossem pelas ideologias políticas, religiosas e econômicas, teríamos mantido uma grande diversidade de jeitos de ser e viver.

A história do mundo parece ser justamente a história desta perda de diversidade e singularidade em favor da uniformização e massificação das maneiras de compreender a vida, quando estas maneiras são uteis para este ou aquele poder.

Nos Séculos XIII e XIV ainda existia uma grande diversidade no mundo. O mercador Marco Polo nos deixou um legado impressionante de suas viagens ao oriente e sobre o extraordinário grau de diferença cultural entre os povos.

Muito antes de Marco Polo, as mitologias egípcias, yorubás, nórdicas e gregas até hoje nos maravilham com a sua imensa criatividade, representando a originalidade da visão cultural de cada povo.

É claro que ainda não sabíamos nada sobre a tal globalização, senão através de algumas tentativas menores de universalização cultural, principalmente, da parte de Alexandre, o Grande com o Helenismo e depois com o Império Romano, que dominou todo o Mediterrâneo.

Não podemos nos esquecer também da Igreja e de suas tentativas de controle ideológico e mental, procurando eliminar o pensamento divergente pagão, impondo dogmas, queimando documentos, silenciando mulheres sagradas através da Inquisição e destruindo grande parte da sua arte e estatuária.

Outra tentativa de uniformização cultural aconteceu na Biblioteca de Alexandria, depósito magnífico da sabedoria antiga. Inspirada em Alexandre e fundada em 280 a.C, foi sistematicamente incendiada por romanos, cristãos e muçulmanos; os dois últimos destruindo o conhecimento antigo para que a Bíblia ou o Alcorão se tornassem únicas referências do saber. O Califa Omar mandou queimar o que tinha restado da Biblioteca em 642 d.C. Também a extraordinária Academia de Platão (384 a.C), foi mandada fechar pelo imperador Justiniano em 529 d.C por ser considerada o último baluarte do paganismo no mundo.

Como vimos, a disputa pelo poder sempre se deu através da tentativa de definir perspectivas e horizontes sociais, pois o melhor controle social é o controle sobre a mente das pessoas. Basta pulverizar e minimizar o valor da educação e da cultura e convencer a população de que o conhecimento suficiente e verídico sempre vem das fontes oficiais, sejam elas quais forem.

Na nossa Idade Contemporânea não está sendo diferente. Após a segunda grande guerra e as tentativas de hegemonia cultural do Fascismo/Nazismo (Hitler matou os diferentes e queimou livros) e do Comunismo (Stalin também matou milhares e uniformizou a cultura), está acontecendo hoje a famosa Globalização, a maior tentativa de uniformização e massificação cultural de que se tem notícia.

Na Globalização é a vez da ideologia econômica tentar nos convencer de que a única forma de viver é através da excitação dos nossos desejos de posse. Há uma enorme iniciativa de mercantilizar comportamentos e valores numa espécie de mercado universal onde o deus salvífico é o dinheiro. Trata-se de uma teia chamada de sociedade de consumo, que não usa mais da violência, mas da formatação das mentes jovens para o cobiçoso individualismo hedonista.

Há muito tempo atrás, na era arcaica da Grécia, um dos grandes inimigos do herói Teseu era o louco Procusto. Em sua casa, Procusto tinha uma cama de ferro, na qual convidava os viajantes a se deitarem. Se os hóspedes fossem altos demais, ele os amputava para ajustá-los à cama e se tivessem baixa estatura eram esticados até alcançarem o comprimento ideal.

A estória de Procusto representa a intolerância do ser humano com o diferente ou fora dos padrões. É uma metáfora para criticar as tentativas de imposição de um só objetivo de vida para todos, um modelo unidimensional, como sempre aconteceu na História dos poderes que transitaram por este planeta.

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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