26/11/2018

Para compreender uma epidemia psíquica

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"A partir de agora a democracia e a política não serão mais como antes. O caos informativo gerado pela cacofonia das câmaras de eco inviabiliza o debate democrático, e, por conseguinte, a própria democracia."

De todas as coisas inusitadas desta campanha eleitoral, o que mais salta aos olhos é o fato de o tema da sexualidade ocupar o centro das atenções e dos debates a ponto de um claramente inventado kit gay ter sido apresentado pela campanha da extrema-direita como uma verdade absoluta.

Saímos, assim, do campo da política para entrar no da saúde mental. Os profissionais da área estão se debruçando, tardiamente, sobre o problema e descobrindo as raízes psíquicas que crescem a partir da frustração e do ressentimento de amplas parcelas da população com os rumos do sistema capitalista.

Por outro lado, a centro-esquerda, que deveria ter o papel de despertar no trabalhador um senso crítico, se absteve de sua função para se entregar alegremente aos assuntos relacionados à partilha do poder e de seus benefícios mais comezinhos e imediatos.

Os intelectuais e tudo o que diga respeito ao pensamento, à reflexão e à introspecção viraram alvo de raiva e desprestígio. Os líderes religiosos e militares, com suas performances histriônicas e soluções simplistas, estão em alta.

Nunca foi tão importante estudar a psicologia das massas como agora, principalmente por causa do peso das redes sociais no debate político. É como se cada indivíduo já nascesse com uma rede de jornal, rádio e televisão ao seu dispor. A partir de agora a democracia e a política não serão mais como antes. O caos informativo gerado pela cacofonia das câmaras de eco inviabiliza o debate democrático, e, por conseguinte, a própria democracia.

O antigo operário da segunda revolução industrial perde cada vez mais espaço e relevância no mundo do trabalho. Na medida em que os postos de trabalho migram dos setores primário e secundário, cada vez mais automatizados, para o setor terciário, a força bruta masculina vai ficando cada vez mais sem função. No setor terciário, o de serviços, as mulheres assumem posição de vantagem, pois, além de inteligentes e criativas tanto quanto os homens, possuem inteligência emocional desenvolvida, o que as fazem ser preferidas para postos de comando.

É quando aparece o líder carismático que destila agressivamente o ressentimento das massas. Ele lembra a todos que, apesar da humanidade caminhar na direção de um mundo do trabalho que valoriza cada vez mais a inteligência emocional, sempre haverá abrigo nos corações e mentes dos radicais de extrema-direita para a virilidade, a violência e a força bruta.

Algo semelhante ocorreu na Alemanha nazista. Freud explica, em seu trabalho intitulado Psicologia das Massas e Análise do Eu, como as massas ressentidas projetaram a salvação num líder carismático violento. Freud fala ainda da hipnose. Ele aponta para os três grandes estados hipnóticos: os que ocorrem entre a mãe e seu bebê, entre os amantes apaixonados e entre os lideres carismáticos e as massas ressentidas.

A estratégia do líder carismático é a de se colocar no lugar do portador da vontade das massas de se livrar da repressão. Ele se coloca nessa posição dizendo tudo o que lhe vem à mente sem censura alguma. Já todo o mal é projetado naqueles que não têm vergonha nem do corpo nem do sexo e pretendem expressar abertamente suas opções sexuais.

Autores fundamentais para a consolidação da racionalidade moderna, como Marx, Freud e Darwin, são fonte de inspiração para os que desejam viver num estado laico, numa sociedade liberal nos costumes e numa cidade cosmopolita. É justamente esse ambiente utópico que faz o macho adulto branco temer pela inexorável dissolução de sua identidade. Por isso, para a extrema-direita, a pauta de reinvindicações passa pela obtenção de um maior controle sobre mulheres, LGBTs e pessoas de cor.

No campo étnico, é inaceitável para a extrema-direita os esforços do Estado brasileiro no sentido da reparação das injustiças históricas perpetradas contra indígenas e afrodescendentes. Para o candidato da extrema-direita é preciso acabar com o sistema de cotas étnicas nas universidades e com as reservas ambientais das terras indígenas.

Retornando ao tema da centralidade da sexualidade no debate político no Brasil de hoje, cito o final do artigo de Contardo Calligaris para a Folha de São Paulo de 18/10/18 intitulado Os boçais (“boçalidade é a paixão de impor aos outros que ajam e pensem como nós”): “1) o homem ocidental persegue há tempos um sonho de controle de si mesmo; 2) esse sonho fracassa diante do caráter involuntário e incontrolável do seu desejo sexual; 3) esse fracasso é atribuído à mulher, malvada Eva, por ela ser fonte constante de tentação – ou seja, a culpada pelo descontrole do desejo masculino. Conclusão: o ódio pelo desejo feminino é a pedra angular da paixão de se controlar, a qual, quando fracassar, transforma-se em vontade de controlar o outro”.

A palavra fascismo vem do latim fasces, o feixe de varas amarrado em volta de um machado. Ele simboliza a unidade em torno do poder dos juízes romanos de flagelar e decapitar os cidadãos desobedientes.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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