26/11/2018

Da renúncia ao contentamento

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"Estar presente e cuidar dos outros é um grande desafio para nossa mente viciada em esperanças e ideais de prazer e felicidade pessoais."

“Estar completamente presente traz um contentamento básico. Cuidar dos outros como cuidamos de nós mesmos nos dá uma sensação de interconexão e significado em nossas vidas. Fazer essa mudança leve, mas radical, em nossa perspectiva, libera nossa mente, traz alegria e tem o potencial de transformar o mundo ”. Erric Solomon

Estar presente e cuidar dos outros é um grande desafio para nossa mente viciada em esperanças e ideais de prazer e felicidade pessoais. Mais do que apenas concentração e foco, estar verdadeiramente presente requer renunciar a toda busca de experiência. Só estaremos completamente presentes na total ausência de expectativas e ideais sobre si mesmo e o mundo para repousar na grande receptividade da vida como ela se apresenta sem reivindicações, exigências e auto julgamentos. Isso significa abrir nossa mente e coração para as coisas como elas são, sem reservas, sem proteção ou projeção de alguma imagem de si mesmo e do que se espera do mundo. A partir desta renúncia e disposição livre e aberta, podemos começar a nos permitir receber a realidade em sua totalidade aqui e agora.

Nesta percepção nua da realidade sem interferência de um “eu quero”, “eu preciso”, “eu espero” o cuidar do outro surge quase que de forma natural, óbvia e simples. É neste movimento de esvaziamento do centramento em si mesmo e inclusão do outro em nossa vida que podemos nos perceber na totalidade do mundo e assim encontrar um autêntico contentamento. Por mais absurdo que possa parecer, é desistindo de buscar a felicidade idealizada que podemos descobrir o contentamento natural sempre presente em nós.

Ken McLeod coloca isso muito bem no seu texto “Esqueça a Felicidade”:

“Se você fosse deixar a busca pela felicidade, o que você faria? Para colocar de forma um pouco mais dramática, suponha que lhe disseram que, não importa o que você fizesse, nunca seria feliz. Nunca. O que você faria com a sua vida?

Você talvez possa prestar mais atenção aos outros. Você pode aceitá-los da maneira como eles são, em vez de procurar formas de fazê-los obedecer à sua ideia de como deveriam ser. Você pode começar a se referir à própria vida, ao invés de olhar para o que você obtém dela. Você pode estar mais disposto a se envolver com o que a vida lhe traz, com todos os seus altos e baixos, em vez de sempre querer que seja diferente do que é.”

Agora vamos falar onde a meditação entra nisso tudo.

Na prática da meditação budista a instrução inicial é a de que a mente deve estar livre de expectativas de resultados. E aqui já começa o treinamento da meditação. Pode parece estranho, mas é assim que já começamos a nos familiarizar com a simplicidade de se estar presente sem a cobiça e a agressão para com a realidade das coisas.

Além de não termos expectativas de um resultado, antes de começarmos a meditação nós estabelecemos o que é chamado “motivação pura” que direciona a razão da nossa prática não somente para nós, mas para o benefício de todos os seres. Isso também se torna um treinamento para gerarmos equanimidade, compaixão, amor e uma correta visão da realidade reconhecendo nossa interconexão com todos. Como diz Nyoshul Khenpo Rinpoche:

“Quando praticamos meditações ou preces de bodhicitta, pode parecer que estamos sozinhos, como se estivéssemos praticando para nós mesmos. Mas não estamos praticando para nós mesmos e não estamos sozinhos. Todos os seres estão interconectados e, neste sentido, eles estão presentes ou são afetados.”

Estabelecida esta motivação, desenvolvemos a prática da meditação não permitindo que preocupações auto centradas interfiram em nossa atividade e motivação pura. Ao final da prática, dedicamos toda virtude, mérito e resultado de nossa prática para o benefício de todos os seres, novamente reconhecendo nossa conexão com todos. Desta forma no pós-meditação procuramos levar este estado de presença e cuidado com os outros em todas as nossas atividades cotidianas.

Esta é uma prática transformadora de nossa mente e de nosso estar no mundo que nos traz mais significado e contentamento na vida. E ao levarmos a prática para tudo que fizermos em cada momento de nossas vidas, trazemos benefícios através de cada pensamento, palavra e ação em todas as nossas experiências.

Como diz Chagdud Tulku Rinpoche:

“A prática tem que acontecer de forma consistente, bem ali onde a mente está ativa, bem ali junto de cada experiência de desejo, raiva ou alegria — a cada momento. Então sua meditação e o seu trabalho se unem — é uma espécie de casamento.”

“Por meio da prática com devoção, desenvolvemos a capacidade de transformar as condições negativas em condições que nos sustentem. Chamamos a isso de “trazer as adversidades para o caminho”, ou seja, não ser bloqueado, desviado ou avassalado por uma determinada coisa, mas ver naquilo uma oportunidade para a prática.” Chagdud Tulku Rinpoche - Portões da Prática Budista – Ed Makara

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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