24/11/2018

Três imaturidades da nossa visão política

Dib Curi Dib Curi
"O país que tem um povo ético jamais terá uma classe política corrupta, enquanto um país que tem o seu povo corrupto terá sempre a maioria de seus entes públicos corruptos também"

Creio que existem, no mínimo, três tipos de imaturidades da visão ou do comportamento político:

A PRIMEIRA é a tendência de polarizarmos em torno de apenas duas visões - consideradas o bem e o mal - juntamente com a nossa incapacidade de compreender o ponto de vista do outro lado, sem a necessidade de menosprezá-lo, julgá-lo ou taxá-lo pejorativamente. Este tipo de imaturidade ancestral na nossa maneira de ser nos torna muito manipuláveis pelos interesses em curso, muitos vezes obscuros, que acabam nos aprisionando nestas dualidades, nos jogando uns contra os outros e nos enfraquecendo coletivamente.

A SEGUNDA imaturidade é a incapacidade de compreendermos que sociedades corruptas sempre vão gerar uma classe política corrupta. Apontar o dedo, dizendo que fulano ou ciclano é corrupto significa muito pouco - neste caso - a menos que amadureçamos e mudemos nossos valores sociais. Esta tendência nos torna manipuláveis também, pois bastam os tais interesses em curso estimularem o clamor popular contra a corrupção, que já esquecemos a raiz do problema e nos colocamos a apontar culpados e buscar bodes expiatórios, criando as famosas instabilidades do “nós contra eles”. Repito, o país que tiver um povo ético jamais terá uma classe política corrupta, enquanto que um país com seu povo corrupto sempre terá a maioria de seus entes públicos corruptos também. Não adianta mudar apenas uma pessoa ou mesmo algumas, pois sempre vamos nos decepcionar pelas mesmas razões.

A TERCEIRA e maior imaturidade é não percebermos a enorme diferença que há entre uma República ou Democracia plena e qualquer regime de natureza autoritária. O justo clamor popular pela moral e pelos bons costumes parece não compreender que a mudança de regime não só mantem a corrupção, como impede que seja divulgada, pois o poder passa a ter donos, sendo retirada a decisão dos trâmites democráticos e institucionais onde o empoderamento se desenvolveria, caso fôssemos mais atentos e participativos.

Escolher um regime de governo de viés ditatorial ou autoritário acaba sendo uma ótima desculpa para quem quer viver a sua própria vida sem ser importunado pelos inúmeros e graves problemas que o espaço público sempre nos coloca. Isto é impossível.

Assim, o nosso maior problema continua sendo o individualismo. Por isto mesmo, a democracia é uma construção de todos, a verdadeira busca do equilíbrio e da harmonia entre as diferenças, caso as pessoas queiram construir alguma coisa juntas. Se não quiserem, é bom saberem que a ditadura só pode ser realizada pela violência e pelo preconceito de quem prefere culpabilizar e excluir os outros do que assumir sua própria responsabilidade social no progresso das mentalidades, principalmente, através do respeito e do diálogo com os diferentes e não com a mudança autoritária do regime.

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

VOLTAR À PÁGINA INICIAL