24/10/2018

Meditação e a coragem do contentamento

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"A mente intolerante é uma mente de sofrimento que não sabe relaxar diante das situações que saem da sua ordem estabelecida. "

Por que é tão difícil encontrarmos satisfação em nossa vida? Por que sempre sentimos que está nos faltando algo?

Vivemos praticamente o tempo todo tentando fazer as coisas ficarem do jeito que estamos acostumados para nos sentirmos bem. E por mais que consigamos algum sucesso nisso, nunca nos sentimos totalmente confortáveis, há sempre alguma coisa fora do lugar. Nossas necessidades e exigências podem se tornar infinitas, fazendo nossas vidas ficarem quase insuportáveis quando alimentamos mais e mais a atitude de agressão de fazer o mundo ser da forma que nos acostumamos, ou melhor, da forma que nos aprisionamos.

Muitos quando falam de viver uma vida plena e feliz, só se referem a um lado da plenitude. É uma plenitude pela metade voltada para o lado que se elegeu ser o positivo e o bom contra o que se elegeu como sendo o negativo e o ruim. Mas ao tornarmos absoluta esta visão parcial da realidade, perdemos a capacidade de receptividade e apreciação das coisas como elas são no conflito do que é e do que deveria ser. E o resultado deste conflito dualista é uma mente envolta em insatisfação e intolerância.

Todo sofrimento e agressão que vemos em nós mesmos e no mundo é fruto dessa incapacidade de relaxar e receber as coisas como elas são. E esta incapacidade se manifesta desde a mais leve aversão a um desconforto físico até a mais brutal violência por não aceitar uma situação.

A mente intolerante é uma mente de sofrimento que não sabe relaxar diante das situações que saem da sua ordem estabelecida. Ao repetidamente optar por mudar as coisas ao invés de aprender a ter mais flexibilidade, abertura e liberdade diante das coisas, transformamos o mundo em algo ameaçador a ser conquistado e moldado em vez de algo a ser apreciado e compartilhado.

A aversão e a intolerância é o caminho mais fácil que nosso discernimento toma por uma questão de hábito. É a tendência habitual comum a todos nós vinda dos profundos instintos de sobrevivência física, incrementada pela busca de sobrevivência emocional e solidificada pelos conceitos absolutos de bem e mal, certo e errado etc.

Podemos dizer que a intolerância é a nossa reação diante da insegurança da mudança e da morte. Parece que em um determinado momento de nossa existência (ou seria em cada momento de nossa existência?) achamos ser mais fácil procurar nos fecharmos nesta redoma conceitual/emocional do que se abrir para as infinitas possibilidades da realidade.

De certa forma, a intolerância é fruto da ignorância de nossa verdadeira natureza com o medo da existência que surge disto. Ao desconhecermos a nossa verdadeira natureza com todas as capacidades e liberdades que temos, nos tornamos medrosos e agressivos diante das coisas. A ignorância da nossa verdadeira natureza e da natureza de todas as coisas é uma situação trágica, a raiz de todo o sofrimento que experimentamos e que fazemos os outros seres experimentarem.

Tudo poderia (e pode agora!) ser bem diferente se despertássemos para nossa verdadeira natureza com todo o seu potencial de beleza, contentamento e paz. Como diz Chogyam Trungpa ao falar sobre a mente desperta:

“A noção de bodhichitta, ou estado de ser desperto, é que temos as faculdades para vivenciar o mundo no seu melhor. Podemos ver as coisas belamente, podemos ouvir as coisas belamente, podemos experienciar as coisas belamente. O único requisito é que deixemos de lado todas as nossas lutas e procuras, todas as nossas “compras”, por assim dizer. Quando fazemos isso, podemos nos sentir como se tivéssemos desistido de algo. Mas à medida que relaxamos mais e mais, percebemos que nossa apreciação está crescendo. Torna-se uma experiência natural ter uma apreciação da beleza das coisas como elas são.”Chogyam Trungpa - THE BEAUTY OF THINGS AS THEY ARE - The Profound Treasury of the Ocean of Dharma. Volume Two: The Bodhisattva Path of Wisdom.

Como sugere Trungpa Rinpoche, se quisermos descobrir este estado de ser desperto e livre teremos que nos aventurar no terreno desconhecido de parar de lutar a procurar, ou seja, parar de alimentar o hábito da agressão ao mundo na busca de aquisições de coisas e condições que achamos que nos trarão plenitude, paz e felicidade. Isso pode soar como se estivéssemos desistindo da vida, e, na verdade, estamos. Estamos desistindo da vida viciada neste tipo de percepção limitada e frágil que não nos garante a liberdade do sofrimento, pelo contrário, aumenta mais ainda nossa insegurança e medo. E para isso, precisamos ter coragem para enfrentar nossos padrões conceituais e emocionais habituais. Como um adicto que corajosamente atravessa sua crise de abstinência para se livrar do vício e redescobrir o verdadeiro sabor da vida.

Sim, é preciso ter coragem para descobrir o verdadeiro contentamento da vida.

E onde entra a meditação nisso tudo?

Bem, a meditação no caminho budista é o treinamento para este estado de ser desperto, mas este assunto fica para a próxima edição do Século XXI.

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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