26/09/2018

Politeia

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"Quando se instala uma crise civilizatória e sofremos uma regressão cultural, é sempre bom voltar às origens da democracia: a pólis grega."

Chamou minha atenção a baixa disposição das pessoas para a conversa sobre as eleições deste ano. Lembro-me de como, em outras épocas, a aproximação das eleições gerava intensos debates nos locais de trabalho, nos encontros familiares e nas rodas de amigos. Hoje, nesses lugares parece que o assunto simplesmente não existe.

Como venho há muito refletindo neste espaço, parece que houve um esgotamento do modelo de democracia representativa nos moldes ocidentais e já propus algumas vezes que o sistema político chinês fosse por nós considerado em alguns dos seus aspectos.

Quando se instala uma crise civilizatória e sofremos uma regressão cultural, é sempre bom voltar às origens da democracia: a pólis grega. E foi o filósofo grego Platão quem melhor falou sobre as qualidades e os defeitos dos regimes políticos. Suas explicações mais completas sobre a política encontram-se na República, no Político e nas Leis.

Platão descreve os sistemas políticos de acordo com a quantidade e a qualidade dos que exercem o governo. Os regimes se sucedem numa determinada ordem e cada um deles possui sua cópia degradada. Assim, a ordem da sucessão dos regimes é: monarquia, aristocracia e democracia, que seriam sucedidas por suas cópias degradadas, a anarquia, a oligarquia e a tirania.

Quanto ao melhor modelo para o político, Platão analisou os do pastor, do legislador e do tirano para refutá-los um a um e chegar à conclusão de que o melhor modelo é o do tecelão.

Ele argumenta que governar, assim como a tecelagem, depende de dois movimentos opostos e complementares, os de cardar e tramar.

Cardar se refere à fabricação do fio a partir de muitos fragmentos de, por exemplo, lã ou algodão. Esta é uma metáfora para a formação da personalidade do indivíduo, a paidea. Já tramar é o ato entrelaçar os fios individuais, transformando o conjunto num tecido.

Para que o indivíduo construa uma personalidade em sintonia com sua função pública, é preciso que um processo pedagógico auxilie cada um a identificar seu próprio temperamento para que possa saber como se encaixar no funcionamento social.

A tradição grega atribui a cada um dos quatro elementos da natureza a existência de um tipo de temperamento. Nos fleumáticos predomina a água, nos sanguíneos, o ar e nos coléricos e melancólicos, o fogo e a Terra respectivamente.

Acontece que tanto a alma individual quanto a cidade possuem três partes que agrupam os portadores dos temperamentos. Assim, fleumáticos e sanguíneos formam a classe dos produtores, dos quais se exige moderação. Já os coléricos compõem a classe dos guardiões, dos quais se pede coragem. Por fim, os melancólicos ocupam a classe dos governantes, dos quais se espera sabedoria.

Platão elaborou a partir desse regime político um engenhoso sistema de freios e contrapesos, pois os trabalhadores podem ter o poder econômico, mas não o político, enquanto que os governantes e os guardiões jamais podem controlar o poder econômico.

Atualmente, mudanças aceleradas no mundo do trabalho, com o surgimento da inteligência artificial, da robótica, da internet das coisas e dos automóveis autônomos, estão pondo em xeque algo que foi sagrado tanto para o capitalismo quanto para o comunismo: o valor do trabalho para a formação da identidade do indivíduo e para a definição de seu valor social.

Fica a impressão de que, uma vez que a classe dos produtores vê estreitar suas chances de alcançar o bem estar social, ela busca o lugar dos governantes através da corrupção. Sem governantes sábios, os guardiões resolvem ou tomar o poder através do medo, ou tomar o lugar dos produtores através do crime.

O termo original usado como título para A República foi Politeia. A palavra República veio dos tradutores latinos e quer dizer coisa pública. No mundo greco-romano, o papel da vida pública foi relevante. Na passagem do mundo antigo para o medieval, os filósofos céticos, cínicos, estoicos e epicuristas forneceram as bases para que o cristianismo invertesse o pêndulo na direção da vida interior individual e privada em detrimento da vida pública.

O iluminismo criou cidades cosmopolitas que passaram a valorizar novamente o espaço público através de dispositivos como o passeio público, o café e o teatro. A cidade moderna transformou o espaço público em espaço morto destinado ao trânsito de veículos. A nova era pós-industrial e pós-moderna transferiu tudo para o mundo virtual, onde o público e o privado se confundem gerando dúvida e perplexidade. A humanidade parece caminhar para a dissolução do eu, da atenção e da vontade em uma nova religião da informação.

Retornemos, então, à politeia.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho mdico homeopata e acupunturista

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