25/09/2018

Percebendo nossas opiniões

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"Observe suas opiniões. Se elas o tornam agressivo, perceba esse processo. "

Estamos entrando num momento muito delicado de nossas relações. O período eleitoral começou e com ele as conversas sobre política, partidos e candidatos começam a tomar conta do nosso cotidiano. Neste ambiente de debates não é pouco comum conflitos de opiniões que algumas vezes geram desavenças entre as pessoas, muitas vezes distanciando amigos e até parentes.

Recentemente, relendo o livro “Quando tudo se desfaz” da monja budista Pema Chodron, um capítulo me chamou a atenção por se tratar de um tema relacionado a este momento em que temos que ter muita habilidade em compartilhar nossas opiniões.

Deixo, então, aqui o texto editado do capítulo “Opiniões” deste belo livro que recomendo a leitura:

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“Uma das melhores práticas para a vida cotidiana, quando não temos muito tempo para meditar, é perceber nossas próprias opiniões. Quando estamos praticando meditação sentada, faz parte da técnica estar consciente dos próprios pensamentos. Então, sem julgamentos, sem classificá-los como certos ou errados, simplesmente reconhecemos que estamos pensando. Esse é um exercício de não agressão em relação a si mesmo e é também uma prática que traz à tona nossa inteligência — ver que estamos apenas pensando, sem acrescentar qualquer tipo de esperança ou medo, louvor ou culpa.

Quando falo em perceber nossas opiniões, estou me referindo a um método simples para começar a prestar atenção no que pensamos e fazemos, e na grande quantidade de energia que acompanha esse processo. Então, é possível também começar a observar como tornamos as coisas sólidas e como é fácil iniciar uma guerra para que nosso ponto de vista prevaleça sobre o dos demais. Somos especialmente tentados a fazer isso quando estamos envolvidos em algum tipo de causa social.

Vamos utilizar o exemplo da camada de ozônio. Estamos certos, quando afirmamos que sua diminuição é um fato científico não uma mera opinião. Entretanto, se tentarmos impedir essa destruição tornando sólidas nossas opiniões contra aqueles que consideramos culpado, nunca mudaremos nada. Negatividade gera negatividade. Em outras palavras, mesmo quando nossa causa é nobre ou tem um bom fundamento, nós não a estamos defendendo quando alimentamos sentimentos agressivos pelos opressores ou por aqueles que criam situações de perigo. Nunca mudaremos nada com a agressividade.

Poderíamos argumentar que a não agressão também não traz muitas mudanças. Ela, entretanto, beneficia imensamente a Terra. A agressividade é a raiz da fome, da miséria e da crueldade no nível pessoal. Quando nos apegamos obstinadamente às nossas opiniões, por mais legítima que seja nossa causa, estamos simplesmente adicionando mais agressividade ao planeta e, com isso, aumentando a violência e o sofrimento. Cultivar a não agressão é cultivar a paz. Para pôr um fim às guerras é preciso deixar de odiar o inimigo. Esse processo começa quando percebemos que nossas opiniões sobre nós mesmos e sobre os demais são apenas uma visão da realidade, sem transformá-las em um motivo para aumentar a negatividade do mundo.

A chave está em perceber a diferença entre uma opinião e a inteligência límpida. Inteligência é ver os pensamentos como tal, sem classificá-los como certos ou errados. No contexto da ação social, vemos quando governos, empresas e pessoas obviamente estão poluindo os rios ou prejudicando pessoas e animais. Podemos tirar fotos. Podemos documentar os fatos. Vemos que o sofrimento é real. Isso é possível porque temos inteligência e não nos deixamos levar por conceitos de bem e mal, esperança e medo.

Cabe a nós separar o que é opinião e o que é fato. Só assim poderemos enxergar com inteligência. Quanto mais pudermos ver com clareza, mais poderosos serão o nosso discurso e as nossas ações. Quanto menos eles estiverem obscurecidos pela opinião, melhor será nossa comunicação, não apenas com os que estão poluindo os rios, mas também com aqueles a quem cabe pressionar essas pessoas.

Como ensinou o Buda, é importante ver o sofrimento como sofrimento. Não estou falando em ignorar ou calar-se, mas quando não acreditamos tanto em nossas opiniões nem solidificamos o conceito de inimigo, estamos conquistando algo. Quando não nos deixamos levar por nossa indignação, vemos a causa do sofrimento com mais clareza e disso decorre o seu fim.

Esse processo exige enorme paciência. É importante lembrar que, quando estamos lá fora, lutando por reformas sem agressividade, estamos trazendo paz ao mundo, mesmo se não atingirmos nosso objetivo específico. Temos de dar o melhor de nós mesmos e, ao mesmo tempo, desistir de qualquer esperança de realização.

Deixamos de estar tão excessivamente voltados para o futuro. Embora estejamos caminhando com uma direção e nosso objetivo seja diminuir o sofrimento, é preciso lembrar que manter nossa clareza mental, manter nossa mente e coração abertos faz parte dessa ajuda. Quando as circunstâncias nos fazem desejar fechar os olhos, tapar os ouvidos e transformar os outros em inimigos, uma causa social pode ser a prática mais avançada. Como continuar a falar e a agir sem agressividade representa um enorme desafio. Para isso, o passo inicial é perceber nossas próprias opiniões.

Não há ninguém no planeta, nem os que consideramos opressores nem os que vemos como oprimidos, que não possua o que é necessário para despertar. Todos nós precisamos de apoio e encorajamento para tomar consciência do que pensamos, falamos e fazemos. Observe suas opiniões. Se elas o tornam agressivo, perceba esse processo. Se elas o tornam não agressivo, perceba isso também. Cultivando uma mente que não se apega ao certo e errado, encontraremos um novo modo de ser. Dessa atitude decorre a definitiva interrupção do sofrimento. E finalmente, nunca desista de si mesmo, pois só assim nunca desistirá dos outros. Dedicadamente, procure fazer o que é preciso para despertar sua inteligência límpida, mas faça isso aos poucos, dia após dia, momento após momento. Se vivermos assim, estaremos beneficiando nosso planeta.”

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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