24/09/2018

Eleições: Fé a algoritmo

Ricardo Lengruber Ricardo Lengruber
"Votar, em vez de ser um exercício de cidadania, tem sido um instrumento de captura do Estado por setores específicos. "

Eleições no Brasil e o discurso religioso (especialmente o evangélico) tem tomado conta dos palanques (hoje também ocupados por pastores).

Na mão e no imaginário desses personagens, a Bíblia. Uma espécie de símbolo de identificação. Votar, em vez de ser um exercício de cidadania, tem sido um instrumento de captura do Estado por setores específicos.

Nada diferente do que já não ocorra há séculos no país - com grupos econômicos dominantes e mesmo com setores mais conservadores da igreja católica. A diferença agora é o simbolismo: a Bíblia na mão e os versículos no discurso.

Tem a ver com o ideário do protestantismo de missão aportado no Brasil No século XIX, e que ganhou forças no século XX com a emergência do (neo)pentecostalismo. A missão é converter o Brasil.

Não há, todavia, que se pensar que, pelo fato de ser a Bíblia, livro sagrado para a maioria dos fiéis (católicos e evangélicos), a inspiradora desses discursos eleitorais, que sejam esses mesmos discursos pautados em valores condizentes com o Evangelho de Jesus.

Primeiro porque não há qualquer diferença da maioria dos políticos evangélicos para com a maioria dos políticos tradicionais. O velhismo político de uns e de outros é o mesmo. Discursos pautados no que a maioria quer ouvir, beneficiamento de setores específicos (e já privilegiados) e esquemas que, não raro, se confundem com corrupção.

Segundo porque a Bíblia é uma coletânea de textos de tempos e lugares muito distintos dos nossos e cuja pluralidade interna é passível de interpretações e apropriações muito diferenciadas. São as contradições inerentes a um texto tão antigo e tão diversificado.

Não se trata de a leitura ser mais ou menos ‘ao pé da letra’. É, antes, uma questão ideológica. Imaginar que o fundamentalista lê a Bíblia sem fazer concessões às metáforas e mitos não é exatamente a realidade. Há textos que são lidos literalmente. Há outros que são atualizados e ponderados. Mais importante de ‘o que’ o fundamentalista lê é o ‘como’ ele o faz. ‘A partir’ do que se baseia e se move.

Retrato disso é a agenda atual que subjaz o discurso religioso na política brasileira. Pautas como uniões civis homossexuais, descriminalização do aborto, porte de armas, imigração e refugiados, escola sem partido, ideologia de gênero, etc, são vistos pela perspectiva conservadora - talvez, pior, pela visão mais retrógrada e preconceituosa que há. Basicamente, assume-se como verdade um determinado conjunto de ideias pré-estabelecidas e se recusa a discutir e problematizar as questões.

Ao negar a reflexão sobre esses temas, as representações religiosas, mais do que garantir a doutrina, se distanciam da realidade contemporânea e contribuem para o retrocesso. Em nome de valores e verdades que o povo acredita cegamente serem absolutos (porque assim foram catequizados), cooperam essas lideranças para cada vez mais fechamento da sociedade. É uma cruzada rumo ao passado, ao obscurantismo.

Essas eleições contam, ainda, com um ingrediente novo: a regulação do uso das redes sociais. Para os 110 milhões de usuários ativos no Facebook, por exemplo, os candidatos poderão patrocinar seus posts.

Partindo do princípio que, para uma mesma quantidade de dinheiro, a rede entregue as publicações igualmente para todos os usuários possíveis, a pergunta que surge é a seguinte: que critérios escolherão que sejam esses perfis em detrimento de outros?

Em outras palavras: estaremos nas mãos de um algoritmo cuja inteligência (artificial?) não se sabe exatamente que critérios usa e que preferências assume.

Por isso, baseado na hipótese de que pouca gente acredita de verdade no que se lê e no que se vê nas redes sociais, é que hoje mais do que nunca fará a diferença o testemunho pessoal e o depoimento sobre os candidatos.

Parece paradoxal, mas a campanha será vencida na rua. Fora das redes artificiais. E é nesse cenário que a fé e as convicções pessoais de cidadania serão tão relevantes na tomada de decisão.

Por: Ricardo Lengruber

Ricardo Lengruber professor, doutor pela PUC Rio e membro da Academia Friburguense de Letras. Leciona Histria e Filosofia na Universidade Cndido Mendes e nas Faculdades Bennett.

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