30/08/2018

“O nirvana está além dos conceitos”

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"A felicidade dependente de coisas e condições está fadada a não funcionar. "

Talvez o melhor seria deixar esta página em branco para falar sobre nirvana. Nada se pode dizer sobre nirvana, só podemos realizá-lo. Talvez, na melhor das hipóteses, podemos falar o que não é.

Na busca da iluminação ou nirvana, podemos desenvolver as mais diversas práticas espirituais, mas por mais sábias e iluminadas que sejam as fontes destas práticas, se mantivermos alguma idéia sobre a iluminação, este será o maior obstáculo para alcançá-la. Nirvana ou liberdade do sofrimento só é possível indo além da percepção dualista. Enquanto houver “isto é” e “isto não é”, haverá conflito entre desejo e rejeição, trazendo confusão, sofrimento, luta e tudo mais que nós já conhecemos.

Como diz Matthieu Ricard:

“Por hábito, percebemos o mundo exterior como um conjunto de entidades distintas e autônomas às quais atribuímos características que acreditamos serem inerentes a elas.

Nossa vivência do dia-a-dia nos diz que as coisas são boas ou ruins, desejáveis ou indesejáveis. O “eu” que as percebe parece ser igualmente concreto e real. Esse erro, que o budismo chama de ignorância, faz surgir poderosos impulsos de atração ou aversão, que uma hora levam ao sofrimento”.

Criamos muitos obstáculos para realização da liberdade do sofrimento ao mantermos a ideia de alguém que irá alcançar algo em algum lugar ou tempo. Não compreendemos que todos estes conceitos são, na verdade, a raiz do nosso sofrimento.

“Ao atingir o estado de realização debaixo da árvore bodhi, Buda despertou da visão dualista e do emaranhado de conceitos que a acompanha, como sujeito e objeto. Ele entendeu que nenhuma coisa composta pode existir de modo permanente. Ele entendeu que nenhuma emoção leva à felicidade, se provier do apego ao eu. Ele entendeu que não há um eu verdadeiramente existente, nem fenômenos verdadeiramente existentes que possam ser percebidos. E ele entendeu que mesmo a iluminação está além dos conceitos. Esse entendimento é o que chamamos a “sabedoria de Buda”, uma conscientização da verdade em sua totalidade”. Dzongsar Jamyang Khyentse

Há uma percepção equivocada do que realmente nos torna livre do sofrimento. Quando pensamos em fim do sofrimento, logo vem a ideia de felicidade. E se olharmos bem, todas as nossas ideias de felicidade estão atreladas a algum tipo de prazer que está atrelada a alguma condição ou coisa: se tenho isto me sinto bem, estou feliz. O problema nisso tudo é que toda condição ou coisa é composta por muitas outras condições e coisas que são impossíveis de se manter e controlar. Se você refletir sobre uma coisa que te deixa feliz, verá que elas dependem de muitas outras coisas que você não tem como manter permanentemente. Só de saber isso, aquilo que te deixa feliz já irá te trazer algum sofrimento devido a sua frágil e vulnerável existência. Portanto, felicidade dependente de coisas e condições está fadada a não funcionar.

Mas se pensarmos em liberdade em vez de felicidade, nós poderemos encontrar uma luz. Como diz Dzongsar Jamyang Khyentse:

“O objetivo de Sidarta (o Buda) não era ser feliz. Seu caminho não conduz, ao final, à felicidade. Antes, é uma rota direta para o estado de libertação do sofrimento, libertação dos enganos, ilusões e confusões. Assim, o nirvana não é nem felicidade nem infelicidade - o nirvana está além de todos os conceitos dualistas. Nirvana é paz”.

Esta libertação do sofrimento significa libertação de todas as dependências de coisas e condições para estar completo e em paz. Chegar a esta sabedoria nos faz atravessar o emaranhado de fabricações conceituais, mentais e emocionais que nos jogam de um lado para o outro na luta dualista de apegos e aversões que mantemos para nos autoreferenciarmos e que, consequentemente, limitam nossa percepção da realidade. Novamente Dzongsar Jamyang Khyentse:

“Buda eliminou todos esses obscurecimentos e viu tudo - tempo, espaço, valores, sexo masculino ou feminino - como isento de dualidade, de modo que o universo poderia repousar sobre um único átomo. Por essa compreensão, seus adeptos com veia poética o enalteceram por ir ‘além do tempo e do espaço’.

Mesmo os discípulos mais próximos de Sidarta, os arhats, são famosos por conseguir ver o céu e a palma da própria mão como sendo do mesmo tamanho; ver um punhado de terra e um punhado de ouro como tendo o mesmo valor”.

Talvez, tal idéia pode parecer muita areia para nosso caminhãozinho, mas isso não quer dizer que não podemos começar lidar com esta idéia de onde estamos. Por isso, para deixar alguma coisa com que se possa trabalhar, compartilho mais algumas palavras de Dzongsar Jamyang Khyentse no livro “O que faz você ser budista”, que recomendo muito para aqueles interessados em aprofundar o que foi dito aqui.

“Se encaramos com seriedade o propósito de alcançar a iluminação, precisamos ter força para renunciar a coisas que são importantes para nós e de muita coragem para trilhar um caminho solitário.”

Saber, ainda que só um pouco, que alguns dos nossos conceitos, sentimentos e objetos mais familiares existem apenas como um sonho, refina o nosso senso de humor; reconhecer o lado cômico da nossa situação poupa muito sofrimento.

Continuamos a ter emoções, mas elas não nos enganam nem nos pregam peças. Podemos ainda nos apaixonar, mas sem medo de sermos rejeitados. Usamos nossos melhores perfumes e cremes faciais, em vez de guardá-los para uma ocasião especial. Assim, cada dia passa a ser especial.”

Encerro aqui a breve introdução para as quatro visões da meditação budista.

Se você não leu os artigos anteriores com as outras visões acesse o site do Jornal Século XXI no link abaixo: http://www.forumseculo21.com.br

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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