28/08/2018

O mundo e a bola

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"Putin, ex-diretor da KGB, parece controlar o presidente americano e é acusado de interferência cibernética nas eleições americanas que elegeu Donald Trump."

A foto do encontro entre Putin e Trump em Helsinque no dia 16 de julho de 2018 parece ser uma daquelas feitas para entrar na História como ícone da mudança de uma era. Fotos como as da queda das Torres Gêmeas ou do Muro de Berlim serão lembradas para sempre como marcos temporais relevantes.

Na foto, Putin entrega a Trump uma bola utilizada na Copa do Mundo, que acabara de transcorrer com sucesso na Rússia. Mas essa imagem pode ser lida ao contrário. Na verdade ela está dizendo: o presidente americano Donald Trump passa a liderança do mundo, a bola, para o presidente russo Vladmir Putin.

Quando vi essa fotografia estampada na primeira página dos jornais, lembrei-me imediatamente de outra foto, a do encontro entre Churchil, Stalin e Roosevelt, respectivamente os presidentes da Inglaterra, da União Soviética e dos Estados Unidos, em 11 de fevereiro de 1945, em Ialta, na Criméia, nas margens do Mar Negro.

Na conferência de Ialta, os presidentes dos três países, os principais aliados vencedores da Segunda Guerra Mundial, assinaram tratados que deram origem à divisão do mundo entre os blocos capitalista e comunista, divisão que norteou os tempos da Guerra Fria.

Nesse momento, a “Era dos Impérios” acabara de terminar com o fim da Primeira Guerra Mundial e o mundo tinha passado por grandes abalos como consequência da grande depressão econômica de 1929. Em determinado ponto dessa época, parecia que o comunismo havia encontrado uma fórmula para superar as crises cíclicas do capitalismo.

Os antigos impérios que desmoronaram em 1914 deixaram um mar de instabilidade geopolítica que confrontava etnias e nacionalidades. Os impérios otomano, autro-húngaro e russo, bem como os impérios coloniais dos países europeus que partilharam o mundo a partir do Tratado de Versailles (1919), que encerrou oficialmente a Primeira Guerra Mundial, viram as regiões que faziam parte de sua esfera de poder ordenados agora pela ideia de um mundo dividido entre as ideologias capitalista e comunista.

Com a queda do Muro de Berlim, deu-se início a um período de hegemonia do pensamento liberal, sob o qual prosperaram ideias como o livre comércio, a livre iniciativa, o livre mercado e a liberdade de expressão.

O período histórico que chamamos de globalização alcançou um enorme sucesso aos incorporar milhões de trabalhadores à sociedade de consumo, principalmente na Ásia. O centro do comércio internacional desde então desloca-se lenta e constantemente do Atlântico para o Pacífico.

Se, na década de 30 do século passado, a União Soviética parecia que iria suplantar, – com a planificação central da economia, a posse dos meios de produção nas mãos do estado e a ditadura do proletariado –, o sistema capitalista, nos anos finais do século XX e nos iniciais do Século XXI as ideias comunistas refluíram e o capitalismo parecia ter encontrado a fórmula da felicidade através do liberalismo econômico.

Porém, os perdedores da globalização, que foram aqueles setores das economias dos países avançados que viram seus postos de trabalho serem fechados e transferidos para países periféricos, principalmente para os asiáticos, deram origem a movimentos políticos populistas que tendem para a extrema direita e que têm como bandeira o retorno a um isolamento étnico, nacionalista e religioso, o que se contrapõe à globalização da economia.

Entre os perdedores da globalização encontra-se, também, a Rússia, cujo capitalismo se implantou tardiamente. A Rússia não se beneficiou da partilha colonial feita pelas potências europeias.

Sempre achei que o Ocidente tem dificuldade em reconhecer o papel histórico dos povos eslavos, dos quais os russos fazem parte. Constantinopla, berço espiritual do cristianismo ortodoxo praticado na Rússia, durou mil anos mais do que Roma. Os eslavos enfrentaram diretamente os mongóis, como Àtila e Gengis Khan, que ameaçaram a formação e a consolidação dos estados nacionais europeus. E, nas duas Grandes Guerras Mundiais, foram os eslavos os mais sacrificados no confronto com a Alemanha nas duas Grande Guerras mundiais.

Enquanto os Europeus se expandiam pelos seus impérios coloniais para os quatro cantos do mundo, os Russos se expandiam para o leste até chegar ao Pacífico. Mas existe, também, uma tentativa de expansão Russa no sentido norte-sul. Este é um antigo jogo geopolítico no sentido de estender a influência russa do Mar Báltico ao Mar Vermelho.

Putin, ex-diretor da KGB, parece controlar o presidente americano e é acusado de interferência cibernética nas eleições americanas que elegeu Donald Trump.

O mundo gira como uma bola.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

VOLTAR À PÁGINA INICIAL