27/08/2018

Espiritualidade e doença

Marcelo Guerra Marcelo Guerra
"A cura não deve se limitar à eliminação dos sintomas, mas à busca de uma tomada de consciência do que nos está afastando do rumo que traçamos, e como podemos retomá-lo."

Ninguém gosta de ficar doente. No entanto, adoecemos com mais ou menos frequência, e com maior ou menor gravidade. Podemos sentir a doença como algo cruel, como uma vingança do nosso próprio corpo, ou como um castigo divino por algo de que nos sentimos culpados.

A medicina convencional apresenta novas descobertas e procedimentos a cada dia, oferecendo um alto grau de especialização e criando a ilusão de possibilidades ilimitadas de cura. Porém, em geral a pessoa é vista como uma máquina que requer reparo.

Alguns autores têm uma compreensão mais espiritualizada do ser humano, de que não somos uma máquina governada por reações bioquímicas, mas antes um indivíduo que pensa, sente e busca um propósito para sua vida e suas atitudes. Dentre esses autores, destacam-se Samuel Hahnemann, fundador da homeopatia, Edward Bach, criador dos famosos Florais de Bach, Thorwald Dethlefsen e Rüdiger Dahlke, autores de livros como “A Doença como Caminho”, Rudolf Steiner, fundador da Antroposofia, e Viktor Frankl, psicanalista fundador da Logoterapia.

Apesar de algumas divergências conceituais e de método, o que esses autores dizem é que o ser humano é um ser em permanente construção, que imprime constantes ajustes em seu caráter e comportamento numa busca ética de se melhorar e fazer algo de bom para as pessoas ao seu redor e o ambiente em que vive.

A doença vem como uma correção de rumo, um chamado do nosso próprio corpo, emitindo sinais de que estamos num caminho que nos afasta desse objetivo ético. Cada sintoma é uma mensagem metafórica daquilo que precisamos cuidar para garantir nossa jornada pelo caminho que traçamos inconscientemente para nossa vida.

Assim, a cura não deve se limitar à eliminação dos sintomas, mas à busca de uma tomada de consciência do que nos está afastando do rumo que traçamos, e como podemos retomá-lo. Isso traz uma grande responsabilidade para a pessoa que sofre: a de ser ativos no processo da própria cura.

Estar saudável geralmente implica na necessidade de mudança de hábitos, mudança essa que exige um esforço da vontade. Quando um hábito se forma em nós, ele fica como que impregnado em nosso corpo, como uma tatuagem, e se manifesta de forma quase automática, exigindo pouco de nossa atividade consciente. O que comemos e os horários de nossas refeições são um forte exemplo disso. É um hábito comum no Brasil comer arroz com feijão. Muitas pessoas comentam que quando não comem essa mistura, sentem como se não tivessem comido, ainda que tenham ingerido outros alimentos que sustentam da mesma maneira.

Fui plantonista de Emergência por muitos anos, geralmente às quartas-feiras, o que implicava em dormir pouco nesse dia. Depois que parei de trabalhar no regime de plantão, desenvolvi uma dificuldade de conciliar o sono nesse dia da semana, o que demorou mais de dois anos para normalizar e criar um novo hábito de sono. Para isso, precisei ter a disciplina de evitar estímulos à noite, deitar no mesmo horário que me deitava nos demais dias e ficar quieto na cama.

Mudar um hábito necessita de duas atividades: estar consciente, atento aos nossos próprios atos, e ter disciplina para promover essa mudança.

Assim, não basta tomar remédio, é preciso perceber aquilo que nos afasta de nossos propósitos mais essenciais e transformá-los em ferramentas para seguir nossa evolução, em paz com nossos pensamentos, nossos sentimentos e nossas atitudes.

Por: Marcelo Guerra

Marcelo Guerra é médico homeopata e acupunturista, além de terapeuta biográfico de base antroposófica. Atende em Nova Friburgo e Niterói, e organiza vivências de autodesenvolvimento.

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