27/08/2018

Religião, Fé e Conversão

Ricardo Lengruber Ricardo Lengruber
"Na origem, religião é diversidade. Restringi-la a esse ou aquele significado é tudo, menos compreendê-la. E pior: inibir que cada um, a seu modo, encontre seu significado. "

Religião deriva da palavra ‘religio’.

Cícero afirmava que o termo se refere a ‘relegere’, que significa ‘reler’. Lactâncio acreditava que vem de ‘religare’, que quer dizer ‘religar’. Agostinho, por sua vez, partia do princípio que deriva de ‘religere’, com o sentido de ‘reeleger’. E Macróbio considerava que a palavra vem de ‘relinquere’, ou seja, ‘algo que nos foi deixado pelos antepassados’.

Religião é uma palavra, portanto, plural. Tem a ver com a ideia de algo que está desconectado e que precisa ser reatado; com a premissa daquilo que se reestabelece; ou com a beleza daquilo que herdamos; mas também com a capacidade de se empreender releituras sobre a vida e a história.

Na origem, religião é diversidade. Restringi-la a esse ou aquele significado é tudo, menos compreendê-la. E pior: inibir que cada um, a seu modo, encontre seu significado.

E isso tem a ver com o que subjaz toda e qualquer religião, que é a ‘fé’.

A fé um salto no escuro. Foi Sören Kierkegaard quem disse algo a respeito. Uma espécie de mescla entre confiança e carência. Esperança e desespero.

Quem se lança sobre o abismo não o faz necessariamente por irresponsabilidade. Mas por profunda necessidade. Talvez - quase sempre - por ser a última opção. A confiança nasce da carestia. Só quem não sabe se haverá o alimento do dia é seguinte é que aprende a dormir na esperança da providência.

Acreditar que as coisas vão dar certo, confiar num bom final ou esperar por algum tipo de benefício não são expressões exatamente de fé. Talvez de pensamento positivo. Ou mesmo de simples otimismo. Não que não sejam necessários e pertinentes. Mas diferem de fé.

A Bíblia diz que fé é a firme convicção daquilo que não se vê, daquilo que se espera. É o encontro de convicção com a expectativa.

A pergunta que me faço sempre é: tenho fé porque confio? Ou confio porque tenho fé? Em outras palavras: a fé é causa ou consequência da vida?

O questionamento tem a ver com o fato de que as experiências resultantes dos atos de fé nem sempre são soluções. Às vezes, são novas perguntas e novas respostas. Novas formas de olhar e de compreender a realidade. São novos desafios. Novos abismos.

Nesse sentido, a fé não é um meio. Mas um fim nela mesma. E talvez seja por isso que a mesma Bíblia diz que a fé não vem de nós, mas é um presente de Deus.

Ou, também por isso, a Escritura nos assegure que somos salvos pela fé.

Com isso, muda até mesmo o sentido que se dá a essa ideia tão controvertida de salvação. Não somos salvos disso ou daquilo. Como se fossem prisões das quais devemos nos libertar. Mas, algo ainda mais radical: um eu que precisa ser reconstruído e reinventado permanentemente.

A salvação é a própria fé. E sem essa fé é impossível agradar a Deus. Porque a fé é inerente a todo abismo. E talvez seja o abismo, ele próprio, a própria morada de Deus.

Daí decorre uma das ideias mais revolucionárias da religião, que é ‘conversão’. Que tem a ver com a mudança de direção na caminhada. Em geral, uma reviravolta que dá outro encaminhamento à vida. É uma exigência da própria existência: manter-se em permanente transformação.

Em grego, a língua do Segundo Testamento, essa ideia é descrita com a palavra ‘metanoia’. Fazer um giro. Realizar uma mudança. Ir além do pensamento atual.

Esse movimento, contudo, tem a ver com descoberta. Com a caminhada de quem deseja se conhecer melhor e experimentar a vida a partir da lógica da superação permanente. Não é viver uma outra vida. Mas descobrir a sua própria forma de viver verdadeiramente.

Diferente disso, é o caminho doentio de quem busca a qualquer preço uma vida paralela, uma experiência artificial ou um alento escapista para as dores desse mundo de tantas contradições. Esse movimento de quem cria universos concomitantes e se perde nas inconsistências deles. Quem vive um permanente faz-de-conta.

As religiões são, ao mesmo tempo, coração de um mundo sem coração e ópio que inebria, induz e aliena.

Basicamente, é a diferença entre metanoia e paranoia.

Por: Ricardo Lengruber

Ricardo Lengruber é professor, doutor pela PUC Rio e membro da Academia Friburguense de Letras. Leciona História e Filosofia na Universidade Cândido Mendes e nas Faculdades Bennett.”

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