26/08/2018

Uma outra Liberdade

Dib Curi Dib Curi
"Para Foucault, a educação seria um instrumento social para adestrar e disciplinar os indivíduos, limitando sua liberdade e possibilidades "

Uma das grandes conclusões do pensamento contemporâneo - fruto do amadurecimento secular do nosso olhar - diz respeito ao ser humano estar muito condicionado, relativamente ao seu pensar, sentir e ver. São milhares de anos de civilização pressionando as pessoas a valorizar ou temer os mesmos interesses dos poderes constituídos, sejam religiosos, políticos ou econômicos. Neste sentido, as instituições sociais sempre colaboraram para formatar o entendimento e a sensibilidade dos indivíduos. Atualmente, o grande instrumento regulador das consciências e jeitos de ser é a mídia.

Um ótimo exemplo da força reguladora dos poderes e seus momentos históricos sobre os indivíduos está contido no extraordinário livro “História da Loucura”, do filósofo francês Michel Foucault, onde este pensador faz uma análise sobre a compreensão da loucura, desde a idade média até nossos dias. Ele chegou a conclusão de que a loucura teve várias interpretações, dependendo do que os seres humanos, através de suas estruturas de poder, mais valorizavam em determinado momento histórico. Por um tempo a loucura foi considerada como um castigo de Deus. Em outro tempo os loucos eram considerados inspirados e especiais. Numa hora eram respeitados e deixados livres. Depois, trancafiados para que se restituísse neles a Razão. Interessante notar que esta última interpretação foi paralela ao advento do Iluminismo, que valorizou a Razão como instrumento superior da consciência. Atualmente, a Razão é colocada em cheque, não mais como um conhecimento superior, mas no mesmo grau de importância da sensação, do sentimento e da intuição.

Foucault analisou também a sexualidade e outros aspectos e constatou que os “interesses históricos” sempre adestraram e disciplinaram os seres humanos a pensarem e a sentirem da forma que lhes fosse conveniente. Foucault considerava que, inclusive aquilo que pensamos sobre nós mesmos, é consequência de uma época e de seus interesses políticos e econômicos:

“O homem é uma invenção cuja data recente a arqueologia do pensamento mostra com facilidade. E talvez, o fim próximo.”

Para Foucault, a própria educação seria um instrumento social de adestramento disciplinar do ser humano, no sentido de limitar sua liberdade e possibilidades:

“As escolas têm o mesmo funcionamento social do que as prisões e instituições psiquiátricas: definir, controlar e regular as pessoas.”

Foucault considerava que aquilo que o ser humano “realmente” é está para ser descortinado, além (ou aquém) dos condicionamentos a que fomos submetidos e que limitam a nossa liberdade à partir de dentro de nós mesmos.

“Nós somos mais livres

do que pensamos.”

Considero também muito interessante a visão das novas doutrinas religiosas que estão adentrando o subsolo da consciência humana, ladeadas pelas descobertas da física quântica, que acredita que nós determinamos - em alguma medida - aquilo que experimentamos como sendo o mundo real. Estas doutrinas dizem que a nossa visão atual, baseada no medo, na dúvida e na crença na escassez são ilusões socialmente geradas, pois o Universo é manifestação da Divindade e se alicerça no Amor e na abundância. Estas doutrinas nos dizem que são as nossas crenças que fazem o mundo tomar esta ou aquela forma. Seria preciso mudar nossas crenças para adequa-las àquilo que É.

Sei que parece um abuso comparar o pensamento contemporâneo, que tem um forte componente ateu, com qualquer doutrina religiosa ou teísta, seja qual for. Mas a questão que quero ressaltar está além desta diferença, ou seja, está na coincidência de ambos considerarem as visões e sensibilidade humanas como consequência de um pesado condicionamento secular que nos aprisiona e atrofia.

Embora seja difícil conversar sobre isto, pelo fato das pessoas terem se tornado cativas em seus próprios pontos de vista, muitas vezes doloridas em suas cicatrizes e crédulas numa realidade desconectada de suas crenças, acredito que estamos nos primórdios de uma revolução que nos mostrará que fortalecemos no real aquilo que cremos em nossa mente. Além desta conclusão aumentar a nossa responsabilidade, é também o maior conceito de liberdade criativa possível que, ao mesmo tempo, enraiza o poder criador da divindade dentro de nós mesmos.

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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