30/07/2018

Tudo é por enquanto...

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
" É preciso ter coragem para dar o salto que nos tira da perspectiva limitada da mente auto centrada e insegura para descobrir a espaçosidade e liberdade da natureza da mente. "

“Todas as coisas são desprovidas de existência intrínseca”

Esta visão / meditação do Budismo é uma das que mais pode ser mal compreendida. Pois, a partir desta afirmação podemos equivocadamente chegar a uma conclusão niilista, onde tudo pode parecer sem sentido, propósito ou valor. Por isso, precisamos ser bem conduzidos na compreensão do significado do termo “desprovido de existência intrínseca”.

“Desprovido de existência intrínseca” significa que não existe por si mesmo, que tudo existe a partir da reunião de diversos fatores, portanto, são “vazias” de uma existência real. Nas palavras de Dzongsar Khyentse Rinpoche:

“Sidarta concluiu que o único meio de confirmar a existência verdadeira de uma coisa é provar que ela existe de modo independente, livre de interpretação, fabricação ou mudança. Para Sidarta, todos os mecanismos aparentemente funcionais da nossa sobrevivência cotidiana - física, emocional e conceitual - não se enquadram nessa definição. Eles se formam a partir de uma reunião de componentes instáveis e impermanentes e, portanto, estão em constante mudança. Podemos entender essa afirmação no mundo convencional. Por exemplo, você poderia dizer que seu reflexo no espelho não tem existência verdadeira porque depende da sua presença na frente do espelho. Se fosse independente, mesmo sem o seu rosto deveria haver o reflexo. De igual modo, nenhuma coisa pode existir verdadeiramente sem depender de incontáveis condições.”

“Se realmente analisarmos, como fez Sidarta, vamos constatar que rótulos como ‘forma’, ‘tempo’, ‘espaço’, ‘direção’ e ‘tamanho’ se desfazem com facilidade. Sidarta deu-se conta de que mesmo o eu tem uma existência apenas relativa, exatamente como a miragem.” ‘O que faz você ser budista’ – Editora Pensamento

Sidarta Gautama, o Buda chegou a esta visão de ‘Shunyata’ ou Vacuidade a partir de uma profunda meditação investigativa sobre a realidade das coisas. Não precisamos de nenhum dote sobrenatural para alcançar a compreensão que Sidarta alcançou, mas precisamos de disposição e profundo interesse para desafiar através da reflexão, contemplação e meditação, as crenças sobre a realidade arraigadas em nossa mente.

Tente encontrar alguma coisa que tenha uma existência independente, permanente e singular, ou seja, que não é composto por outras coisas. Se refletir desta forma, você não irá encontrar nada assim, nem mesmo você e suas ideias sobre você. Veremos que tudo é interdependente, impermanente e composto inúmeros fatores que mudam constantemente, como um sonho.

Esta visão não nos coloca num mundo de nada, onde tudo é uma ilusão e, portanto nada importa, mas sim num mundo de tudo, onde tudo é possível. Todas as experiências são possíveis no vasto espaço da natureza da mente. Esta é uma visão de abertura, de perspectiva criativa e também de responsabilidade. Tsoknyi Rinpoche explica:

“Quando os budistas falam sobre a vacuidade como a base do nosso ser, não queremos dizer que quem ou o que somos não é nada, é um zero, esse é um ponto de vista que pode dar lugar a uma espécie de cinismo. Os verdadeiros ensinamentos sobre a vacuidade implicam num espaço infinitamente aberto, que permite a qualquer coisa aparecer, mudar, desaparecer e reaparecer. O significado básico de vacuidade, por outras palavras, é a abertura, ou potencial. No nível básico do nosso ser, nós somos “vazios” de características definidas.”

Temos muita resistência de ver a realidade desta forma, pois isto traz uma sensação de insegurança para nossa mente auto centrada e habituada a uma falsa segurança na fixação em conceitos, coisas e condições e na busca de poder para controlar a permanência de tudo que elegeu com “eu” e “meu”. Mas se refletirmos bem, veremos que esta forma de ver o mundo só pode nos trazer sofrimento, pois a realidade das coisas irá sempre nos contrariar nesta busca equivocada de paz e segurança. É preciso ter coragem para dar o salto que nos tira da perspectiva limitada da mente auto centrada e insegura para descobrir a espaçosidade e liberdade da natureza da mente.

Ainda que não tenhamos alcançado a plena realização da vacuidade através de métodos meditativos, compreender de forma reflexiva e contemplativa já pode nos ajudar a soltar um pouco as fixações que nos fazem sofrer. Lembrar que tudo é “por enquanto”, como uma miragem, um sonho, pode nos libertar da aversão e do medo de experiências negativas e do apego e expectativa de experiências positivas. Desta forma, podemos também ser mais flexíveis e habilidosos diante dos acontecimentos e, ao mesmo tempo, não nos iludirmos com “toda a parafernália e todas as crenças que a sociedade constrói e derruba” como diz Dzongsar Khyentse Rinpoche.

Ao contrário do que alguns podem pensar, meditar nas coisas como sendo desprovidas de existência intrínseca não nos tira o prazer e o sentido de estar neste mundo, na verdade esta meditação pode nos abrir um novo sistema de lógica e percepção com menos sofrimento e insatisfação e mais compaixão e contentamento. Novamente Dzongsar Rinpoche explica:

“Essa visão é semelhante à de um cenógrafo ou assistente de fotografia quando vai ao cinema. Um profissional enxerga mais do que nós. Ele vê como a câmera estava posicionada, quais foram as lentes e equipamentos de iluminação utilizados, que a multidão foi gerada por computador, e todas as demais técnicas cinematográficas que a platéia não percebe; com isso, para ele a ilusão se desfaz. Ainda assim, um profissional pode ter enorme prazer ao ir ao cinema. Este é um exemplo do humor transcendente de Sidarta”.

Há muito mais o que falar sobre este assunto, mas para isso precisaria de muito mais espaço neste jornal (talvez o jornal inteiro), então o que posso fazer agora é recomendar, aos interessados, a leitura do livro “O que faz você ser budista” de Dzongsar Khyentse Rinpoche, do qual eu tirei boa parte das citações para este e para os artigos anteriores, para uma compreensão de tudo que foi dito aqui.

Na próxima edição falaremos sobre a quarta e última visão: “O nirvana está além dos conceitos”

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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