29/07/2018

Caminhos

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"A conclusão é que, no Brasil, vivemos o pior dos mundos. Como uma China ao contrário, resolvemos pegar o pior do capitalismo e do comunismo e criamos com isso o pior dos regimes sociais."

Hoje, os caminhoneiros são os donos dos caminhos. Mas nem sempre foi assim. Antes da revolução industrial as pessoas e as coisas deslocavam-se através de barcos pelos rios e pelos mares ou por meio da energia dos animais de tração.

No Brasil, os tropeiros eram os responsáveis pelos transportes terrestres no interior do país. No lombo dos burros, a circulação de bens e passageiros serpenteava o mar de montes tão característico da paisagem geológica do Estado do Rio.

Com a revolução industrial as coisas rapidamente mudaram. Na primeira revolução industrial, a máquina a vapor possibilitou o advento do trem e do navio a vapor. Nessa época surgia também o cabo submarino, que ligou os continentes trazendo notícias do mundo inteiro num curto espaço de tempo através de jornais diários.

Com a segunda revolução industrial, o motor à explosão trouxe carros, caminhões, ônibus, aviões e locomotivas a diesel. Os meios de transporte ganharam em eficiência e variedade. A televisão possibilitou a formação da aldeia global.

A Internet, fruto da terceira revolução industrial, fez com que tudo mudasse radicalmente. Agora é a informação que se desloca de forma instantânea, em tempo real. As pessoas e as coisas ficam paradas.

A quarta revolução industrial promete o desmanche do colosso que é a indústria petrolífera-automobilística-urbanística. Sim, porque as cidades modernas são desenhadas levando mais em conta automóveis do que pessoas. Energia limpa e carros autônomos começam a sair das páginas e dos filmes de ficção científica para tornarem-se realidade.

É dentro desse contexto histórico que a greve dos caminhoneiros vem se inscrever no patético destino de regressão social, política e econômica que vivemos.

A greve dos caminhoneiros de 2018, assim como as manifestações de maio de 2013, representa uma espécie de retorno do recalcado do inconsciente nacional.

Os militares, que hoje são chamados para nos tirar da enrascada em que nos metemos, devem se lembrar de que foram eles mesmos que ajudaram a criar o problema ao terem optado, durante a ditadura militar, pela indústria automobilística em detrimento do transporte ferroviário.

As manifestações de 2013 vieram na esteira da insatisfação com a mobilidade urbana caótica gerada pelas isenções que o governo Dilma ofereceu à indústria automobilística e que, associada ao controle artificial dos preços do petróleo, paralisou as cidades, quebrou a arrecadação de impostos e colocou a Petrobras em sérias dificuldades.

Em 2018 a tragédia repete-se em escala nacional, agora com os caminhões que lotaram o País devido a novos incentivos fiscais dados à indústria automobilística. Com o baixo crescimento econômico, o aumento internacional do preço do petróleo e a desvalorização do real caiu a margem de lucro do frete, o que levou aos protestos e às paralizações dos caminhoneiros.

A conclusão é que, no Brasil, vivemos o pior dos mundos. Como uma China ao contrário, resolvemos pegar o pior do capitalismo e do comunismo e criamos com isso o pior dos regimes sociais. Notamos uma curiosa inversão de valores. Vemos partidos de esquerda se acertando com grande empresariado das áreas de construção civil, petróleo e agronegócio, que, na prática, com suas propinas privatizaram o estado. Vemos, do outro lado, partidos de direita aumentando o peso do estado nas costas do contribuinte ao se negarem a entregar ao livre mercado e à livre iniciativa o papel de dizer que atividade deve sobreviver ou não à disputa pela sobrevivência econômica.

Do ponto de vista político, realmente existem dois tipos de pessoa: 1) as de direita, cujo foco do interesse encontra-se nas propriedades organizadoras do livre mercado e da livre iniciativa e 2) as de esquerda, cujo foco está mais no reconhecimento e reparação de injustiças históricas.

Bem que os esquerdistas poderiam admitir que a estratificação social fosse legítima quando baseada no mérito, no esforço e no talento individual, desde que acompanhada de oportunidades iguais para todos em saúde e educação.

Os de direita, por sua vez, poderiam reconhecer as injustiças históricas e aderir à construção de uma sociedade com oportunidades iguais, o que incluiria a maior ênfase em impostos sobre riqueza pessoal e transmissão de herança, embora defendam que o acesso à riqueza seja legítimo através da meritocracia produtiva e não do compadrio ideológico.

É dessa aliança entre os modernos, pois foi da modernidade que surgiu o próprio conceito de oposição entre direita e esquerda, que se torna possível a existência de um centro político capaz de equilibrar as tensões opostas.

Enquanto isso, nos países desenvolvidos discute-se o fim dos motoristas de caminhão, substituídos, na quarta revolução industrial, pelos veículos autônomos.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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