28/06/2018

A nossa criança e a cortina do passado

Vera Calvet Vera Calvet
"Ao mesmo tempo que nossas experiências de passado nos trazem conhecimento, podem também nos dar a impressão de que nada muda. "

Disse Otto Lara Resende: “Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. E há pai que nunca viu o próprio filho, marido que nunca viu a própria mulher. Isso existe às pampas! Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração, o monstro da indiferença!”

Não abrir os olhos de nossa criança interior é sermos condenados por nossa maturidade! Não. Talvez não se possa acusar a maturidade pelos olhos opacos, pela perda da criança e do poeta. Mas o olhar sempre voltado ao passado sim, esse pode ser o grande responsável! Pois o passado pode se infiltrar no presente, trazendo uma cortina de velhos hábitos de percepção que roubam a luz do sol e impedem o ar da renovação entrar.

Ao mesmo tempo que nossas experiências de passado nos trazem conhecimento, podem também nos dar a impressão de que nada muda.

De que, por exemplo, uma vez vista uma paisagem, será sempre a mesma a partir dali. Ou que as pessoas que conhecemos também serão sempre as mesmas. E com isso pensamos ter que conhecer outras paisagens e outras pessoas o tempo todo, tentando manter nosso olhar curioso e interessado.

A vida começa a parecer uma corrida contra o tédio! Mas a mesmice está apenas em nossos olhos voltados ao passado, pois cada minuto do presente é tão novo, mágico e belo! Tantas descobertas, mudanças e detalhes nunca percebidos em nós, nas pessoas e no mundo estão agora em nossa frente, no presente!

Como podemos enxergar essa explosão de vida e novidades quando tudo o que percebemos é a cortina do passado? Atrás da cortina tudo é velho, repetitivo, sempre o mesmo e tedioso dia! Nada muda e nosso espaço fica cada vez menor, sufocante e escuro!

Qual a motivação possível para se iniciar um novo dia, se todos parecerão iguais? Na tentativa de dar algum movimento, tentamos provocar novos e emocionantes eventos, mesmo que negativos, para nos sentirmos vivos! Porém, a cortina faz com que os novos eventos passem a ser rapidamente, tediosos e velhos eventos.

Sim! Nada consegue chacoalhar e banir o monstro da indiferença caso não se recupere o olhar curioso da criança e a observação sensível de nosso poeta interior, no momento presente.

Por: Vera Calvet

Vera Calvet é arquiteta, vice-presidente do Instituto Ráshuah do Brasil - Núcleo de Meditação e Terapias. Psicoterapeuta, escritora, instrutora de meditação e palestrante. Desenvolveu métodos terapêuticos voltados ao autoconhecimento e técnicas de Meditação, ministrados em todas as unidades do Instituto Ráshuah no Brasil e no exterior: http://www.rashuah.com.br

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