27/06/2018

Indo além da dor das emoções

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"O problema da percepção dualista é que ela é uma percepção equivocada da realidade. E esta percepção equivocada nos faz experimentar a realidade de uma maneira parcial e incompleta (...)"

Depois de falarmos na edição passada sobre a visão da impermanência, seguimos com a segunda visão para meditação utilizada nas práticas do Budismo.

Esta é uma visão que muitos têm resistência em concordar, pois mexe num aspecto da vida que muitos apreciam e que, de certa forma, direciona o modo comum de viver de todos nós. Estamos falando de nossas emoções.

A sabedoria budista afirma que “todas as emoções são dor”. Sim, todas, não algumas.

Talvez seja fácil concordar que algumas emoções são dor, mas todas pode parecer um exagero. Então por quê se diz que todas as emoções são dor?

Deixemos o mestre budista Dzongsar Khyentse Rinpoche explicar:

“Porque envolvem dualismo. Do ponto de vista budista, enquanto houver sujeito e objeto, enquanto houver uma separação entre sujeito e objeto, enquanto vocês os divorciarem, digamos assim, enquanto vocês pensarem que eles são independentes e que então funcionam como sujeito e objeto, isso é uma emoção, o que inclui tudo, praticamente todo pensamento que temos...

... Enquanto houver a mente dualista, há esperança e há medo. E quando há esperança e há medo, isso não é dor? A esperança é, em muito, uma dor. Pensem! A esperança é uma dor muito sistematizada e organizada! E então, é claro, o medo nem precisamos explicar.”

Vamos olhar melhor este ponto da esperança e do medo. Dualismo implica que há duas coisas o “eu” e o “outro”. Este outro, seja uma pessoa ou qualquer outro objeto tem dois efeitos: gostar/desejo/esperança por um lado e não gostar/aversão/medo por outro. O lado de não gostar/ aversão/medo é fácil de compreender que nos causa sofrimento, mas o outro lado pode não ser tão claro.

O desejo/esperança é dor porque implica em querer algo que não se tem e na confiança de que se irá obter este algo. Portanto, enquanto se está em desejo/esperança não se está completo e nesta incompletude, seja de forma mais grosseira ou sutil, há algum tipo de dor e de sofrimento. Ao mesmo tempo, ao se conquistar aquilo que se deseja, permanece como pano de fundo sempre o medo de, em algum momento, se perder o que foi conquistado, resultando em algum tipo de sofrimento. O mesmo nós podemos dizer de outras emoções que vemos como positivas e felizes, todas envolvendo em algum tipo de percepção dualista.

Você pode estar se perguntando, mas qual o problema da percepção dualista? Existe algum outro tipo de percepção?

O problema da percepção dualista é que ela é uma percepção equivocada da realidade. E esta percepção equivocada nos faz experimentar a realidade de uma maneira parcial e incompleta onde, através de nossas emoções, nos identificamos com um lado e rejeitamos ou nos agarramos ao outro.

Na explicação do monge budista e filosófo Matthieu Ricard:

“Cada um de nós é, de fato, uma pessoa única, e está certo reconhecermos e apreciarmos quem somos. Mas ao reforçarmos a identidade separada do ego, perdemos a sintonia com a realidade. A verdade é que somos fundamentalmente interdependentes das outras pessoas e do ambiente. Nossa experiência é o conteúdo do fluxo mental, do continuum da consciência, e não há justificativa para ver o ego como uma entidade distinta desse fluxo.

Imagine uma onda que se propaga, influencia o ambiente e é influenciada por ele, sem que por isso se transforme no meio de veiculação ou transmissão de qualquer entidade particular.

Porém estamos tão acostumados a fixar o rótulo de “eu” a esse fluxo mental, que chegamos a nos identificar com este último e temer o seu desaparecimento. Segue-se daí um poderoso apego ao ego e à noção de “meu” — meu corpo, meu nome, minha mente, minhas posses, meus amigos, e assim por diante — que leva ao desejo de possuir ou ao sentimento de repulsa pelo “outro”.

É assim que os conceitos de “eu” e “outro” se cristalizam na nossa mente. Ficamos com a impressão errada de que existe uma dualidade irredutível e inevitável, criando assim a base para todas as nossas aflições mentais, como o desejo alienante, o ódio, o ciúme, o orgulho e o egoísmo.

Nesse ponto percebemos o mundo através do espelho deformante das nossas ilusões e permanecemos em desarmonia com a verdadeira natureza das coisas, o que leva à frustração e ao sofrimento”. Felicidade – Ed. Palas Atenas

Para começarmos a desfazer esta fixação na percepção dualista, é preciso que desenvolvamos certos recursos interiores para lidar com a energia de nossas emoções sem a deturpação do apego ao eu. Estes recursos são treinados dentro do caminho budista, principalmente no caminho do Budismo Vajrayana, através de diversos métodos de meditação. Desta forma, ganhamos habilidades para lidar com tudo que surge em nossa mente/coração para remover os obscurecimentos dualistas que encobrem nossa verdadeira natureza.

O Lama Ringu Tulku explica claramente isso nesta passagem do seu livro “Daring Steps: Traversing the Path of the Buddha”:

“Seguindo os ensinamentos Vajrayana, não abandonamos nem rejeitamos nada; em vez disso, utilizamos o que quer que apareça. Olhamos nossas emoções negativas e as aceitamos pelo que são. Então relaxamos nesse estado de aceitação. Usando a própria aflição, ela é transformada e transmutada em algo positivo, em sua verdadeira face.

Quando, por exemplo, surge raiva ou desejo intensos, um praticante Vajrayana não tem medo. No lugar disso, ele ou ela seguiriam as instruções que dizem o seguinte: tenha a coragem de se expor às suas emoções. Não rejeite nem suprima, mas também não as siga. Apenas olhe para sua emoção, olho no olho, e tente relaxar dentro da própria emoção.

Não há confronto envolvido. Você não faz nada. Permanecendo desapegado, você nem é carregado pela emoção nem a rejeita como algo negativo. Então, você pode olhar para suas aflições quase casualmente e até se divertir com isso.

Quando se vai nosso hábito de magnificar nossos sentimentos e a fascinação resultante disso, não haverá nenhuma negatividade e nenhum combustível. Podemos relaxar dentro disso. O que estamos tentando fazer, portanto, é lidar de modo hábil e sutil com nossas emoções. Isso em grande parte equivale à habilidade de exercer a disciplina”.

Para desenvolver estas habilidades, além da disciplina e atenção necessárias para se perceber o surgimento das emoções, é preciso um entendimento intelectual e meditativo sobre a terceira visão empregada no caminho budista: Todos os fenômenos não têm existência inerente.

Mas esta visão fica para a próxima edição.

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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