27/06/2018

Libercídio

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"Com o mundo globalizado e miscigenado, o reconhecimento do outro como igual e como irmão é mais complicado."

A Civilização Ocidental moderna tem seus princípios básicos melhor definidos pelo lema da Revolução Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade.

Com as transformações sociais recentes a partir da queda do muro de Berlim, esses três pilares do nosso horizonte utópico foram sendo reelaborados e ressignificados pelo psiquismo coletivo. Conceitos e ideias como os de nação, de república e de oposição entre direita e esquerda, pelos quais nossos antepassados chegavam a dar a própria vida em defesa, passaram a perder gradativamente a nitidez e foram se apagando.

Entretanto, chama a atenção o fato de que enquanto as noções de igualdade e de fraternidade vão afundando no esquecimento das formulações políticas, a de liberdade continua forte através do sucesso atual de ideias como as de liberalismo econômico e libertarismo político.

Parece que a igualdade e a fraternidade dependem do reconhecimento através do pertencimento a um grupo étnico. É uma espécie de atavismo tribal que permanece no fundo da alma do homem moderno.

As religiões missionárias como o cristianismo, o islamismo e o budismo são movimentos que, através da espiritualidade, reuniram numa mesma ordem social diversas etnias.

No tempo da Revolução Francesa havia homogeneidade étnica entre os franceses. Com o mundo globalizado e miscigenado, o reconhecimento do outro como igual e como irmão é mais complicado. Misturamos as cores, os traços físicos e as mentalidades de diversos povos. Por isso é que entre nós latino-americanos, o dinheiro e o poder sejam tão importantes, pois estes passaram a ser nova régua a medir o que dá acesso ao reconhecimento como igual e à possibilidade de despertar empatia.

A pergunta que se impõe então é: será possível criar e manter uma sociedade livre na qual a igualdade e a fraternidade não façam mais parte do seu horizonte utópico?

A Civilização Ocidental parece desejar ardentemente algo impossível. Ela quer ao mesmo tempo liberdade, mas não mais a igualdade e a fraternidade. É uma espécie de regressão cultural se comparado com o ideal cristão e moderno de uma sociedade multirracial, multicultural e cosmopolita.

Países como China e Rússia viraram o jogo contra as potências ocidentais na grande disputa geopolítica mundial dos tempos atuais ao questionarem o peso da liberdade na vida política. São regimes relativamente autoritários, mas que mantém algum tipo de liberdade individual.

China e Rússia conseguiram dar a volta por cima porque sacrificaram a liberdade em função de um plano estratégico de longo prazo voltado para uma missão geopolítica comum a todo um povo.

O ponto esquecido na política mundial é que o comunismo soviético ruiu em decorrência da separação da China e da Rússia pela atração da primeira para o capitalismo e para a globalização. A entrada da China no mercado mundial enfraqueceu o movimento de esquerda dos trabalhadores nos quatro cantos do planeta. Sentimos isso na pele em Nova Friburgo, com a perda de milhares de postos de trabalho no setor metalmecânico e têxtil.

Agora China e Rússia dão sinais de que, apesar das disputas territoriais históricas, estão voltando a agir novamente em conformidade. E vai ficando evidente que a vantagem que vão adquirindo em relação ao Ocidente se deve à relativização da ideia de liberdade em função de um sentimento de pertencimento étnico, pois pouco se miscigenaram.

Três exemplos de situação nas quais a relativização da liberdade confere vantagens à coletividade: 1) o controle da Internet em tempos de guerra cibernética; 2) o planejamento regional e urbano da China, que restringe os movimentos migratórios internos de acordo com a demanda por trabalho, o que evitou a formação de bolsões de miséria na periferia das grandes cidades; e 3) a possibilidade de voto na China apenas em filiados do partido único, o Partido Comunista, que recruta seus membros entre os melhores e mais destacadas lideranças do país.

Sim, soa estranho aos nossos ouvidos ocidentais. Mas, se sacrificamos a igualdade e a fraternidade, porque deveríamos poupar a liberdade?

Se não refletirmos sobre isso, estaremos caminhando enquanto civilização para o suicídio através da liberdade. O libercídio.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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