24/06/2018

Notas esparsas para um país sem cérebro

Dib Curi Dib Curi
"“Que tempos são estes em que é tão necessário defender o óbvio?” Bertold Brecht"

Tenho lido, nas mídias sociais, posicionamentos e opiniões de dar nauseas e dor de barriga. Acredito que, para fazer um país, precisamos de cidadãos. E para ser cidadão é preciso, em primeiro lugar, ter verdadeiro amor pela nação e também uma mínima formação, principalmente, em História. Sem isto, somos somente um enorme aglomerado de indivíduos caóticos, uma massa amorfa e sem identidade que vive se metamorfoseando pra lá e pra cá conforme determina o interesse das mídias e poderes que insistem em pairar sobre nossas cabeças e nos influenciar. Quando formos nos posicionar sobre ideologias (ismos), precisamos consultar em pelo menos três fontes diferentes para que não nos arrisquemos a nos tornar ainda mais preconceituosos, limitados, ignorantes e parciais do que já somos. Neste sentido, é bom ter atenção à frase de Nietzsche: “Não existem fatos, só interpretações”.

Liberdade na internet

Sempre achei que a democracia funciona melhor quando temos um equilíbrio entre esquerda e direita. Isto porque um acaba policiando o outro em suas ambições de domínio. Na História, toda vez que a coisa desequilibrou em favor de um ou de outro lado, os extremismos apareceram, a coisa degringolou e saímos todos perdendo. Agora parece que é o momento da direita no mundo. Um exemplo é o partido republicano nos EUA, com Donald Trump. Vejam esta pérola: Em dezembro de 2017, os EUA decretaram o ‘fim’ da neutralidade da rede e decidiram que o provedor pode controlar o acesso à internet. (passa a valer em abril ou junho). Isto significa, entre outras coisas, que num futuro próximo, o provedor, baseado num critério financeiro, poderá dificultar que os internautas visitem este ou aquele site, porque negociou com empresas adversárias. Isto abre uma brecha legal para que os governos nos controlem ainda mais, colocando recursos nas empresas e impedindo que tenhamos acesso a esta ou aquela informação. Determinados conteúdos poderão ser precificados a mais ou a menos, dependendo dos interesses privados envolvidos. Vêem o perigo? Pois bem: A era da igualdade entre os usuários da Internet parece ter chegado ao fim nos EUA. O Brasil, sempre muito influenciável, será o próximo.

Sobre Bolsonaro

Quem estudou História conhece os efeitos deste discurso magoado, ressentido e moralista do Bolsonaro. É normal que este tipo de postura radical, preconceituosa e vingativa faça sucesso em momentos sem esperança e aparente caos social. Entretanto, em todos os casos na História da humanidade onde o povo aceitou este discurso de condenação à diversidade de ser e pensar, as coisas pioraram muito, inclusive, com guerras. Não existe mágica para solucionar problemas estruturais de um país. Mas existe catástrofe. No caso do Brasil, o nome da catástrofe é Bolsonaro.

Equilibrar nosso lado negativo

Se aceitarem pensar à respeito da espiritualidade, verão que tem a ver com a ampliação da nossa visão e sentimento. Ora, como podemos alargar nossos horizontes se nos deixamos pautar e levar pelo que os outros dizem, pensam e sentem negativamente? A maioria das pessoas está muito reativa à fofoca social destrutiva. Estão sendo determinadas a pensarem e sentirem isto ou aquilo. O pensamento deve brotar de dentro e não de fora. Uma coisa é um fato e uma outra coisa é a interpretação ou a lição que se tira. Viver nunca foi fácil. Por isto, é preciso ficar com a lição das coisas. Parar de nos portarmos como repassadores de estímulos sociais apocalípticos. Se vamos repassar alguma coisa; emoção, notícia ou pensamento, que tenhamos visão crítica para poder transforma-la em uma reflexão ou aprendizado útil à sociedade. Repasse coisas positivas também. Precisamos nos alimentar de esperança, de afeto e de beleza. Por que escolher somente a versão do mundo cão? Que interesse temos nisto? Não devemos confundir o estado de nossas emoções com a trajetória do mundo. O mundo é reflexo de um milagroso Universo que, infelizmente, não está cabendo dentro do ser humano, mas é por falta de acolhimento.

Não é por ai...

Me desculpem, mas não é por aí. Esta implicância de grupo com grupo, este humor volátil que permite picuinhas e mimimis a toda hora, esta agressividade e esta raiva como origem de violência e ironia, esta preguiça pelo estudo, esta indigestão por conhecimento de causa, esta superficialidade de Wikipédia, este apego a rótulos e status, este preconceito com a opinião e o jeito de ser alheio, esta repulsa pela sabedoria e fraternidade, este orgulho ou vaidade incansáveis que acabam projetados no sucesso e no fracasso dos outros, esta negatividade e nervosismo fruto de indisciplina emocional, esta dor mimada que só busca se abastecer ainda mais, este ressentimento com a Vida, esta ignorância arrogante que repudia quem faz diferente, esta empáfia auto indulgente, este apego a uma zona de conforto intelectual vulgar e repetitiva, esta escolha por gavetinhas ideológicas, este vício de auto referência que se sente ameaçado por qualquer coisa, esta culpa arraigada sempre culpabilizando os outros por tudo. Este maniqueísmo infantil do Mal e do Bem o tempo todo inventando teorias de conspiração. Este medo, este medo, este medo. Me desculpem mas não é por aí. É preciso se reformar primeiro para só depois tentar reformar os outros.

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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