30/05/2018

O Vôo Livre da Impermanência

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"O que pode mudar na minha vida ao ficar meditando, trazendo este pensamento de que todas as coisas são compostas e impermanentes de novo e de novo na minha mente? "

Todas as coisas compostas são impermanentes.Esta é uma das quatro afirmações em que se medita na tradição budista.

Saber que as coisas mudam e que elas acabam, nós sabemos, mas eu diria que nós sabemos até um certo ponto. Esta é uma das nossas verdades inconvenientes, sabemos que as coisas são impermanentes, que elas mudam e morrem, mas não queremos saber muito disso, nem pensar nisso e contar com isso. O problema é que ao não querermos refletir sobre a impermanência, perdemos uma grande oportunidade de ter uma visão de vida mais lúcida, livre e criativa.

Intelectualmente sabemos que tudo tem um começo, meio e fim, mas emocionalmente não sabemos e é por isso sofremos. A ironia nisso tudo é que nos recusamos refletir sobre a impermanência porque achamos que isso nos fará sofrer por antecipação. Mas, na verdade, meditar sobre a impermanência é um dos primeiros remédios amargos (nem tanto) que temos que tomar se quisermos parar de sofrer, segundo a visão budista.

Para entendermos o que o Budismo quer dizer com meditar sobre a impermanência, precisamos entender profundamente que todas as coisas são compostas e que elas não existem de forma independente. Para explicar isso melhor, deixo com vocês as palavras do Lama Budista Dzongsar Khyentse Rinpoche.

“Após um longo período de contemplação, ele (Sidarta Gautama, o Buda) chegou à compreensão de que todas as formas, inclusive nossa carne e ossos, assim como todas as nossas emoções e todas as nossas percepções, são compostas: são o produto da junção de duas ou mais coisas. Quando dois ou mais componentes se juntam, surge um novo fenômeno: pregos e madeira se transformam numa mesa; água e folhas se transformam em chá; medo, devoção e um salvador se transformam em Deus. O produto final não tem existência independente de suas partes. Acreditar que ele realmente exista de forma independente é o maior dos enganos. Nesse meio tempo, as partes passaram por uma mudança. Simplesmente por estarem reunidas, sua natureza se alterou e, juntas, transformaram-se em uma outra coisa - elas passaram a ser ‘compostas’.Sidarta compreendeu que isso se aplica não só à experiência humana, mas a toda a matéria, ao mundo inteiro, ao universo, pois todas as coisas são interdependentes, todas estão sujeitas a mudanças. Em toda a criação, não há um único componente que exista em um estado puro, permanente, autônomo. Nem o livro que você está segurando, nem os átomos, nem mesmo os deuses. Tudo o que existe na esfera da nossa mente, mesmo que apenas em imaginação - como, por exemplo, um homem com quatro braços -, depende da existência de alguma outra coisa. Assim, Sidarta descobriu que a impermanência não significa morte, como geralmente pensamos; significa mudança. Tudo o que muda em relação a uma outra coisa, ainda que seja a menor das alterações, está sujeito à lei da impermanência”. O que faz você ser Budista – Editora Pensamento

Podemos nos perguntar: E daí? O que pode mudar na minha vida ao ficar meditando, trazendo este pensamento de que todas as coisas são compostas e impermanentes de novo e de novo na minha mente?

Deixo com vocês novamente as palavras do Rinpoche:

“Se permanecemos conscientes de que os fenômenos são compostos, ganhamos consciência da interdependência. Ao reconhecer a interdependência, reconhecemos a impermanência. E, quando lembramos que as coisas são impermanentes, há menor probabilidade de sermos escravizados por suposições, crenças rígidas (tanto religiosas quanto leigas), escalas de valores ou fé cega. Essa consciência impede que sejamos enredados por todo tipo de drama pessoal e político e por problemas de relacionamento. Começamos a perceber que as coisas não estão inteiramente sob controle nem nunca estarão, de modo que não há a expectativa de que venham a sair de acordo com as nossas esperanças e temores. Não há ninguém em quem pôr a culpa quando as coisas saem erradas, porque são inúmeras as causas e condições que poderiam ser as culpadas”.

“Há muitos benefícios em compreender a noção de composição, de como a criação de um simples ovo cozido envolve um número enorme de fenômenos. Quando aprendemos a enxergar as partes que se reúnem para compor todas as coisas e situações, aprendemos a cultivar perdão, compreensão, destemor e abertura mental”.

“O destemor nasce quando você consegue apreciar a incerteza, quando você tem fé na impossibilidade de componentes interligados permanecerem estáticos e constantes. Você chegará ao ponto em que, de um modo muito verdadeiro, estará preparado para o pior ao mesmo tempo em que abre espaço para o melhor. Você passa a ter dignidade e majestade”. O que faz você ser Budista – Editora Pensamento

Enquanto mantivermos a tendência habitual de nos fixarmos nas coisas e pessoas, nos apegando a elas como algo que não deve e não pode mudar e acabar, estaremos criando um campo constante de sofrimento. Manter esta tendência ao apego é sinal de que não compreendemos a verdadeira natureza das coisas, é o sinal emocional de nossa ignorância básica. E começamos a despertar nossa sabedoria ao meditar na verdade de que todas as coisas são compostas, interdependentes e impermanentes.

Talvez meditar nisso no início traga uma certa insegurança, medo ou mesmo tristeza que ainda são frutos do hábito da mente de buscar uma base de ser a partir da fixação e do apego às coisas e pessoas. De certa forma, teremos que passar por algumas “crises de abstinência” do nosso vício de fixação. Mas se diligentemente desafiarmos este estado ignorante da mente, nós podemos descobrir uma realidade muito interessante, não tão temerosa ou insegura, porque, em essência, neste processo de mudança poderemos ver que há um movimento contínuo infinito que quando não recebe resistência se torna tremendamente criativo.

Há uma frase famosa do Lama Budista Chogyam Trungpa que esclarece bem esta situação:

“A má notícia é que você está em queda livre, sem nada onde se agarrar, sem paraquedas. A boa notícia é que não há chão.”

E se não há chão, por que a queda não pode ser vista como um belo vôo?

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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