28/05/2018

Nova Friburgo 200 anos: entre o mito, o palanque e a vida real

Ricardo Lengruber Ricardo Lengruber
"É uma pena: pelo andar da carruagem, vamos ficar apenas nos shows, nas recepções e nos desfiles. Eventos estanques. Necessários, mas desconectados da vida real do friburguense concreto. "

Quando uma cidade comemora 200 anos é óbvio que se deseja festa. Quando, todavia, há muita crítica e pouco engajamento é porque algo anda errado.

Nova Friburgo celebra seu bicentenário mergulhada, infelizmente, num cenário de descontentamento, apatia e insensibilidade.

A população - a massa real dos moradores da cidade (não apenas a meia dúzia que pensa que “forma opinião”) - carece de serviços básicos minimamente razoáveis. Por isso, quando, por exemplo, mais de 1 milhão de reais são investidos em shows e coquetéis é natural que haja reprovação. Mesmo que os shows estejam cheios (e provavelmente estarão mesmo), há uma reprovação geral nas escolhas e prioridades equivocadas.

Não que não tenha que haver festa. Deve haver sim. Mas a questão é que quem tem um mínimo de consciência e cidadania sabe que não é assim que a banda toca. Sabe o que significa um hospital mal gerido, escolas com profissionais mal remunerados, transporte coletivo precário, ruas esburacadas e uma infinidade de boas ideias nas gavetas.

Um investimento milionário em shows de entretenimento - se bem geridos - poderiam retornar aos cofres públicos (e especialmente à economia da cidade) de forma muito positiva, gerando empregos e aquecendo a economia. A questão é que não há planejamento de longo prazo. Não há formulação de polícias públicas de cultura, de eventos e de turismo. Nesse cenário, o montante gasto deixa de ser investimento e vira desperdício.

Há, também, uma apatia generalizada. As pessoas não se veem representadas no enredo dos festejos. Há uma preferência elitista por um passado mítico que comunica pouco e toca menos ainda na vida concreta das pessoas. As tradições deveriam servir para congregar. Quando não o fazem é porque são “fake” e/ou porque representam apenas uma parcela do grupo. Tem muita gente do lado de fora da festa. E que não faz a menor questão de entrar. Sabe que não é para si. E isso é muito triste.

E existe, mais do que tudo, uma insensibilidade geral. Especialmente de quem assumiu pra si a missão de organizar a festa. Estamos perdendo uma oportunidade singular de tornar a simbologia dessa data uma virada civilizatória para a cidade. Perdendo a chance de engajar o morador real de Friburgo na tomada de decisões. De construir uma identidade municipal em que todos os seus moradores se enxerguem e, mais importante, que se sintam incluídos e como protagonistas.

Mas convenhamos: isso só se faz com política. Com a tal da boa política. Com formação e cidadania. Só se consegue realizar com educação e com envolvimento das pessoas, por exemplo, nas associações de moradores, conselhos, sindicatos etc. E isso formaria novas lideranças. Novos ares oxigenariam nosso cotidiano. Infelizmente, nossas atuais (e outras nem tão atuais) lideranças políticas não querem concorrência.

Nos 200 anos, precisávamos fazer um balanço. Carecíamos de honestamente fazer uma autocrítica como sociedade e, a partir dessa experiência, construir esperanças novas. A festa que precisamos deve ser vista como celebração. Não é a festa de quem é enganado com pão e circo. Mas de quem celebra com esperança a inauguração de um novo tempo.

É uma pena: pelo andar da carruagem, vamos ficar apenas nos shows, nas recepções e nos desfiles. Eventos estanques. Necessários, mas desconectados da vida real do friburguense concreto.

Em geral, nas festas, há dois palanques. A turma amarela da situação que bate palma engravatada. E a turma raivosa da oposição que cria celeuma em tudo para aparecer na televisão. Só muda o andar. Mas é tudo palanque. E o povão mesmo - que paga a conta da festa - anda meio cansado de palanque.

Talvez, quem sabe, algumas luzes sinceras nas comemorações oficiais e a descontente mas propositiva oposição nas ruas acabem por convergir em iniciativas de mobilização na direção de reconstrução da cidade.

Tomara.

Por: Ricardo Lengruber

Ricardo Lengruber é professor, doutor pela PUC Rio e membro da Academia Friburguense de Letras. Leciona História e Filosofia na Universidade Cândido Mendes e nas Faculdades Bennett.”

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