28/05/2018

Democracia e Informação

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"Países como China e Rússia, que não participaram da partilha colonial das Américas, África, Ásia e Oceania, feita pelas potências ocidentais, ficaram para trás na corrida econômica, mas (...)"

Estudos indicam que o surgimento dos movimentos espirituais que deram origem às grandes religiões modernas – budismo, judaísmo, hinduísmo, cristianismo e islamismo – está relacionado ao acúmulo de calorias. Tudo aconteceu num período de 200 anos a partir de 2500 anos atrás, no que se convencionou chamar de Era Axial.

O argumento é o de que “com um fornecimento estável de energia tivemos mais tempo para cooperar, cultivar habilidades e aprender a ponderar consequências. Isso pode ter permitido maior tranquilidade para ponderar a existência e pensar sobre o propósito da vida” (Mente e Cérebro n° 269, 6 de 2015, pg. 31).

Talvez possamos aplicar esse mesmo raciocínio à relação entre informação e democracia.

As religiões foram a base da sociabilidade humana durante milhares de anos. Os preceitos religiosos organizaram a vida das famílias, dos clãs e tribos. Eles deram também o substrato para a justificativa da divisão da sociedade em castas como do hinduísmo e no feudalismo europeu medieval. Em outros momentos, religiões libertam os indivíduos de suas origens étnicas, como o budismo fez com o hinduísmo e o cristianismo com o judaísmo.

O fato é que, assim como tivemos uma revolução agrícola há 10 mil anos, tivemos uma revolução da informação há cerca de 500 anos através da invenção da imprensa por Guttemberg(1398-1468).

Com a popularização da informação, primeiro com os livros e depois com os jornais, as ideias passaram a circular e desembocaram nas chamadas revoluções burguesas (inglesa, francesa e americana) e nas revoluções proletárias (russa, chinesa e cubana).

Nesse tempo, ideias circulavam na forma impressa. A informação viria tomar grande impulso para sua difusão com o rádio e, depois, com o cinema e a TV. Foi o tempo do poder dos grandes conglomerados que criavam e manipulavam a chamada indústria cultural de massa.

Os anos 70 viram nascer a terceira revolução industrial, trazida para dentro dos lares pelas maravilhas da Internet, fruto do projeto Guerra nas Estrelas, o escudo antimísseis nucleares do governo Regan e que, junto com a aproximação EUA-China, levaram ao desmoronamento do comunismo e do Bloco Soviético.

A quarta revolução industrial está chegando com o estágio 5G da telemática. Mudanças radicais no mundo do trabalho prenunciam a crise final do capitalismo numa grande e paradoxal crise de superabundância. Já se fala até mesmo numa renda mínima universal, pois a inteligência artificial aliada à robótica, à biotecnologia, à internet das coisas e aos veículos autônomos fará praticamente todo o trabalho, de produzir couves a realizar consultas e cirurgias.

A rapidez crescente com que consumimos e produzimos informação dá a cada indivíduo uma espécie de sensação de onipresença, onisciência e onipotência. Cada um se torna uma pequena divindade tendo o universo rodando em torno de seu próprio umbigo. E o Facebook é o templo dentro do qual se desenrola a liturgia do culto dos umbigos ligados em rede. Uma espécie de retorno ao panteísmo.

Então, surge a pergunta: se o aumento na oferta de calorias levou aos preceitos éticos das grandes religiões contemporâneas, porque o aumento da oferta de informação que gerou as revoluções democráticas logo perdeu a força e degenerou numa Babel de fake news?

Resposta: porque a forma que a Internet foi e está sendo estruturada, com base em suas grandes empresas de tecnologia (Microsoft, Google, Facebook, Amazon), não está a serviço da promoção da paz, da concórdia e da obtenção de benefícios mútuos da sociabilidade. Pelo contrário, seguindo o “espírito animal” do capitalismo que fez dessas empresas detentoras de lucros e ativos maiores que o PIB da maioria dos países, sabe-se agora que os dados dos seus usuários são vendidos com fim de marketing comercial e de propaganda política.

Países como China e Rússia, que não participaram da partilha colonial das Américas, África, Ásia e Oceania, feita pelas potências ocidentais, ficaram para trás na corrida econômica, mas preservaram um “bem” que está se tornando uma vantagem crucial: mantiveram certa homogeneidade étnica. E a disposição para agir de forma tribal é um impulso indomável tão forte quanto o desejo de açúcar, drogas e sexo na espécie humana. Foram centenas de milhares de anos vivendo assim. Contamos nos dedos de uma mão os poucos séculos de idade da ideia de democracia representativa.

Russos e Chineses podem adotar sistemas de governo autoritários e centralizados porque têm homogeneidade étnica. O Ocidente, pelo contrário, beneficiou-se de políticas hediondas como a escravidão e o genocídio de populações nativas aborígenes das colônias. Temos um pesado carma para pagar. Porém, por outro lado, criamos joias multiculturais como, por exemplo, o jazz e o samba.

Por serem multiétnicos e multiculturais, os países ocidentais necessitam desesperadamente de um ambiente político participativo e colaborativo no qual se possa mediar racional e civilizadamente os conflitos dos diversos grupos sociais na busca de reconhecimento e reparação para injustiças sociais históricas.

Com a Internet jogando contra, fica difícil. E este é só um dos aspectos da guerra cibernética que se desenrola entre as principais potências mundiais.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

VOLTAR À PÁGINA INICIAL