27/05/2018

Três aspectos do caminho espiritual

Dib Curi Dib Curi
"A Ética só pode vir da Mística. E a Mística é a união final com a Espiritualidade em nós. No fundo, somos todos UM só. "

A humanidade só vai melhorar quando cada um decidir progredir integralmente. Este progresso pessoal depende de três fatores. O primeiro é termos uma visão correta sobre as coisas. Para alcançá-la, precisamos ter auto crítica, humildade, estudo e reflexão e, principalmente, atenção e respeito com as visões diferentes da nossa.

Nesta questão do respeito é bom saber que existem tantas visões e opiniões quantas são as pessoas. Cada pessoa tem uma perspectiva diferente, por seu jeito de ser, preferências e valores. Por conta destas tendências individuais tão diversas, o filósofo Platão falou da existência das opiniões (Doxa) e do verdadeiro conhecimento (Episteme). Platão dizia que, através da dialéctica (que tem a ver com o diálogo), podemos elevar nossa visão para termos um olhar de cima, integrador das diferenças e conflitos. É como olhar a Terra de cima e ver que não existem linhas que dividem os países. O separatismo das ideologias e dos interesses é obstáculo para tal visão.

O segundo fator importante no progresso pessoal é a inteligência emocional, o estado de nossos sentimentos e psicologia mal resolvida por dores não superadas, traumas, ressentimentos, medos, bloqueios, raiva e egoísmo, ou seja, todo tipo de problema psicológico que torna nublada a nossa visão das coisas em virtude de emoções conturbadas. É necessário superar a insegurança e a ansiedade com um coração plácido e lúcido e um estado de paz interior sem o qual é impossível a visão espiritual.

É preciso nos curarmos psicologicamente. Além de dores e da da inflexibilidade, há também uma construção cultural em torno do nosso EU natural, que embota nosso fluxo “afetivo” e nos transforma num joguete dos poderes religiosos, políticos e econômicos. O próprio indivíduo reprime seus afetos em virtude de mil mecanismos de auto defesa, controle social, busca de aprovação ou projeção de ideais fabricados.

Muitas vezes, parecemos animais de manada, como se tivéssemos instalado em nossas mentes um software utilitário-narcisista que reflete os interesses dos poderes constituídos. Não enxergamos a realidade mas a nós mesmos. Nossa tarefa seria a de desmontar por dentro estas estruturas (ego e superego) e outros condicionamentos para percebermos além; a enorme bem aventurança de pertencermos a um milagroso “universo espiritual”, mas não como indivíduos separados e egocêntricos.

Depois do aspecto mental e emocional, vem o espiritual. Sobre ele, pouco se pode falar, pois nossa mente é tão formatada e preconceituosa e nossas emoções tão turbulentas e confusas, que ficamos presos no ceticismo e no individualismo. Não conseguimos ver o céu no reflexo do lago de nós mesmos, pois a água ficou muito agitada. Nossa visão espiritual é distorcida pelo que somos, por nosso sistema de crenças e pelo que sentimos e acreditamos. A única coisa que se pode falar da espiritualidade é sobre o Amor que ela É. Só este Amor nos trará a verdadeira Ética, pois a Ética vem da Mística. E a Mística é a união com a espiritualidade em nós. Somos todos UM só.

Acredito que estamos no limiar de um tempo de cura, mas antes a doença incubada terá que se manifestar plenamente para experimentarmos a consequência de nossos atos, do que pensamos, sentimos e sintonizamos. Só esta vivência dolorosa poderá nos ensinar e nos transformar, trazendo a consciência integral do problema.

Antes deste processo de experiência da nossa livre escolha e da colheita dos frutos de nossas ações, somos ainda semi-humanos, seres imaturos, ignorantes e egocêntricos. A evolução espiritual e a conquista da verdadeira liberdade tem o seu preço. Muitas vezes, crescer pode doer...

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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