26/04/2018

Da visão à meditação

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"Falar em visão correta hoje em dia é algo bem delicado, principalmente em se tratando de religião, espiritualidade e meditação. "

“Não importa o quanto você se sente na almofada, não importa o quanto você não se distraia, não importa o quanto você medite, até que você tenha a visão correta, você não fez nada. Até que você tenha a visão correta, essas coisas não o levam a lugar algum. Você ainda está enredado, você ainda é o peixe sendo fisgado”

Ao terminar o texto anterior desta coluna com esta declaração do Lama Budista Dzongsar Khyentse Rinpoche, eu deixei a seguinte pergunta: “Você pode estar se perguntando: Então qual é a visão correta?”

Então vamos à ela.

Falar em visão correta hoje em dia é algo bem delicado, principalmente em se tratando de religião, espiritualidade e meditação. São tantas as abordagens de diferentes tradições e grupos que falar em visão correta pode ser visto como algo fundamentalista. Portanto, não é minha intenção definir o que é a visão correta para meditação num contexto amplo, pois é óbvio que cada proposta ou filosofia terá a sua visão para desenvolver sua meditação.

No caso da citação acima de Dzongsar Rinpoche, ela é em relação à meditação budista. Desta forma, o que pretendo aqui é abordar esta visão e mais especificamente sobre um método que tem se tornado muito popular: a meditação mindfulness (atenção plena).

A meditação mindfulness é definida atualmente como “a prática de prestar atenção de maneira particular, intencionalmente no momento presente, sem julgamento, com abertura e curiosidade”. Mas para entendermos o que a meditação mindfulness significa e como ela pode nos ajudar de forma ampla, é importante saber que ela é apenas um aspecto do treinamento da mente no Budismo que envolve o desenvolvimento de sabedoria, meditação e ética. A mindfulness fora deste contexto pouco ajuda no treinamento da mente segundo a visão budista. Ela pode ser útil para cultivar qualidades como relaxamento, concentração e clareza mental, mas só isso não muda seus hábitos mentais e condicionamentos de percepção.

Como diz Bhante Henepola Gunaratana:

- “Você deve ter notado como os gatos prestam total atenção à sua presa para poderem capturá-la, sem cometer nenhum erro que possa assustá-la. Tigres, leões, crocodilos prestam total atenção àquilo que estão fazendo para capturar a sua presa. Pode ser que você tenha notado que as garças permanecem paradas num único lugar por um longo tempo para agarrar um peixe. Cães pastores ficam totalmente atentos aos movimentos das ovelhas para que possam correr com rapidez e dirigir o rebanho na direção certa. Infelizmente nem o gato, a garça ou o cão pastor são capazes de remover a sua cobiça, paixão, etc., ou cultivar um pouquinho que seja de insight prestando total atenção aos seus objetos”.

Ou seja, você pode ter uma mente focada, não reativa e capaz de não ser levada pelos seus impulsos ou distrações, mas isso não necessariamente muda a visão da realidade, os princípios e os valores que você responde aos estímulos e experiências que chegam a você?

Mindfulness tem origem no termo pali “sati”, que significa “recordar-se continuamente do seu objeto de atenção” No treinamento budista esta capacidade é usada para investigar a natureza das coisas, da realidade e da existência com uma intenção íntegra de elucidar percepções distorcidas ou equivocadas para, desta forma, transformar nossa maneira de perceber a realidade (visão) e desenvolver um estilo de vida harmônico que gere benefícios para nós mesmos, os outros e o mundo.

Como podemos, ver a meditação mindfulness no contexto budista é uma ferramenta para alcançarmos uma visão de sabedoria. E que visão é esta?

Bom, por aqui eu deixo com vocês as palavras de Dzongsar Khyentse Rinpoche:

“Há quatro diferentes visões que são únicas do Budismo, que vocês não podem encontrar em qualquer outro lugar. Se encontrarem todas estas quatro visões dentro de um caminho, dentro de uma filosofia, dentro de uma idéia, então não importa se ela é chamada de budista ou não, porque a palavra “budista” ou “budismo” não é importante. Mas se este caminho contiver estas quatro visões únicas, então isso é algo que alguém como eu consideraria o caminho do Buda, o caminho que é ensinado por Siddhartha Gautama. Falarei brevemente sobre elas.

‘Qualquer coisa que seja composta é impermanente’. Isso é único. Mais tarde falaremos porque isto é único. A segunda (um pouco mais complicada e também dolorosa de se ouvir) é que ‘todas as emoções são dor’, todas as emoções são sofrimento, todas as emoções são duhkha. Isso é algo que não queremos ouvir. E é algo único do Budismo. Acho que apenas os budistas falam sobre isto. Muitas outras religiões ou filosofias cultuam coisas como amor, celebração, cânticos e coisas assim — os budistas acham que tudo isto é sofrimento. Falaremos sobre isso mais tarde. E a terceira visão é muito mais difícil. ‘Nenhum fenômeno tem existência inerente’. Alguns de vocês, budistas desgastados e cansados, devem ter ouvido isto milhares de vezes. Mas para aqueles que são novos, pode ser bem interessante. Mas isto também é bem difícil de engolir porque há muito bloqueio dentro de nós. A quarta (a mais difícil de entender e a mais difícil de aceitar) é que ‘o nirvana está além dos extremos’. Isso é muito, muito difícil. Não apenas de entender, mas difícil de aceitar porque, como pessoas religiosas, todos pensamos que iremos de algum modo para um lugar onde teremos um sofá melhor, um chuveiro melhor, um sistema de esgoto melhor, algo assim. Algum tipo de nirvana onde nem mesmo precisamos ter um controle remoto, onde tudo funciona no momento em que pensamos. E quando os budistas começam a dizer que o nirvana está efetivamente além dos extremos, isso é algo bem difícil de aceitar”. (Extraído de ensinamento em Sydney, Austrália, em abril de 1999)

Recapitulando:

1) Todas as coisas compostas são impermanentes.

2) Todas as emoções são dolorosas.

3) Todos os fenômenos não têm existência inerente.

4) O nirvana está além dos extremos.

Sidharta Gautama o Buda fez estas afirmações, mas ele disse para não acreditarmos nela cegamente. Ele propôs esta visão para nós meditarmos nela, a investigarmos e chegarmos a nossa própria conclusão. Aparentemente estas afirmações podem parecer bem pessimistas e niilistas, mas muito pelo contrário, como um remédio amargo, a meditação nestas afirmações é a base para a cura de todo o nosso sofrimento e para a autêntica liberdade e alegria de viver. E para entendermos melhor tudo o que foi exposto aqui, na próxima edição do Século XXI abordaremos cada uma destas afirmações a partir dos ensinamentos dos mestres budistas.

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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