24/04/2018

O sacrifício de Marielle

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"O importante para a esquerda é se perguntar: o que os eleitores de direita estão buscando na lógica militar?"

O sacrifício de Marielle não será em vão. Seu desaparecimento oferece à esquerda brasileira um novo mito para ajuda-la a se repensar, a fazer uma autocrítica sincera e, assim, se refundar.

Depois refundada sob novos valores morais e novas lideranças, a esquerda precisa tentar compreender o que se passa na cabeça e no coração do eleitor de direita. Quando temos coragem de encarar a própria sombra, paramos de projetá-la no outro. Neste sentido, precisamos compreender o papel dos militares na história do Brasil

Desde o início da República, nosso País alterna períodos de democracia civil e de tutela militar.

A passagem da monarquia para a república foi feita pelos governos militares dos Marechais Deodoro e Floriano. Os militares dessa época eram identificados com o positivismo e o progresso.

Depois veio o período do Café com Leite, a Velha República, no qual a aristocracia rural de São Paulo e Minas se alternavam no poder. Foi nesse período que o prefeito carioca Pereira Passos, com o dinheiro do boom do café, promoveu a abertura de largas avenidas no centro da cidade, expulsando antigos moradores negros, mestiços e pobres para os morros do entorno do Centro da cidade.

Foi Getúlio Vargas, cuja passagem pelo exército marcou profundamente sua visão de mundo, o líder que consolidou o fim da Velha República, amparado num estilo militar que flertou com o fascismo, o nazismo, o socialismo e o integralismo. Com sua eleição e com seus sucessores, um período populista se seguiu até que, dentro do contexto da disputa de corações e mentes entre capitalismo e comunismo durante o período da Guerra Fria, retornam os militares pela terceira vez em 1964.

O pêndulo voltou, então, a se mover em direção aos civis e à democracia durante a Nova República, cheia de governos de vice-presidentes fracos e deslegitimados. O período da Nova República está se encerrando agora com as próximas eleições presidenciais.

É quando aparecem políticos espertos, que perceberam o movimento pendular ao qual estamos presos e resolvem explorar a ideia da volta dos militares que repousa no fundo do inconsciente coletivo nacional.

O importante para a esquerda é se perguntar: o que os eleitores de direita estão buscando na lógica militar? Eu respondo: honra, brio, hierarquia, disciplina, bravura, patriotismo, coragem. Tudo o que está faltando a importante parte da esquerda no momento atual.

Fazendo uma refundação baseada em autocrítica e compreendendo o que quer e pensa os adversários de direita, o próximo passo é perguntar ao eleitorado: será que precisamos repetir para sempre o movimento pendular entre democracia civil e tutela militar?

Esclarecido o assunto, o último, decisivo e mais difícil passo: imaginar uma forma de renovar o espírito da democracia, do trabalho, da cidade e do estado. É aí que chegamos à Maré de Marielle.

A ocupação da Favela da Maré reproduziu, ao modo de um fractal, a ocupação da própria cidade do Rio de Janeiro. Como o morro do Castelo, no Centro do Rio, o morro do Timbau, “entre as águas”, em Tupi, acolheu o primeiro povoado da comunidade. Depois, a cidade foi descendo e se acomodando entre córregos, lagoas e manguezais da Baia de Guanabara, que foram sendo progressivamente aterrados com entulhos vindos da vizinhança e de vários pontos da cidade. Com as obras de criação da Ilha do Fundão, parte da Maré passou a ser ponto de passagem de autopistas, tendo parte da população sido transferida para locais longínquos como a Vila do João.

A favela da Maré encontra-se situada entre a beira da Baia de Guanabara e a Avenida Brasil. O polo industrial que outrora existira ao longo da Avenida Brasil agoniza e gera grandes vazios urbanos, enquanto a população pobre vive excessivamente adensada em guetos nos quais o poder público não controla.

Por outro lado, áreas da cidade como Leopoldina e São Cristóvão possuem grande estoque de terrenos subutilizados e próximos da infraestrutura urbana. Porque não desadensar as favelas da cidade reassentando boa parte de seus moradores em locais mais próximos das oportunidades que a cidade oferece?

A Avenida Brasil, símbolo vivo da decadência da sociedade industrial, pode ser um eixo estruturador de uma nova fronteira de expansão da cidade. A abertura para os fundos da Baia de Guanabara permitiria o desfrute de parques lineares alagáveis, como o Parque Ambiental Dicró e o Piscinão de Ramos.

Se buscamos um mito regressivo para encontrar nas origens a força necessária para a transformação, deixemos os militares em paz. Eles já cometeram seus acertos e seus erros pelo País.

Sugiro que retornemos aos Tupinambás, os antigos senhores destas terras. O que mais nos interessa e motiva é estar seminus na beira da água. É simples.

É assim em Atibaia, no Guarujá ou em Mangaratiba. É assim, também, no Piscinão de Ramos e no Parque Ambiental Dicró.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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