22/04/2018

Homenagem póstuma ao professor Jorge Miguel Mayer

Dib Curi Dib Curi
"À julgar pelos noticiários, 90% da população brasileira não tem nenhuma condição emocional de ter porte/posse de armas. "

No dia 20 de março de 2018, passou para o outro lado da Vida uma grande pessoa; o amigo, incentivador e articulista do Jornal Século XXI, por 19 anos, o professor Jorge Miguel Mayer.

Jorge Miguel foi uma pessoa extremamente estudiosa, doutor em História pela UFF, sempre com uma visão de mundo e atitudes antenadas com as forças progressistas da História.

Em sua maturidade, Jorge conseguiu ampliar as próprias visões, adquirindo uma sensibilidade graciosa para as novas formas de espiritualidade, para a questão ambiental, para a arte/cultura e para o afeto como centro do viver.

Jorge Miguel era morador e defensor entusiasmado das virtudes culturais, turísticas e ambientais de São Pedro da Serra, em Nova Friburgo. Adorava o teatro e montou peças onde atuava e dirigia.

Jorge foi (e é) uma pessoa encantadora, gentil e afetuosa. Uma das pessoas com as quais melhor eu me comunicava, graças ao seu satírico senso de humor. Agradeço suas lições, através de nossos encontros, que me traziam sempre profunda alegria. Sou muito grato por sua bela amizade e incentivo.

Quero deixar um novo abraço à sua esposa, a amiga e guerreira Zelma Gonçalves Mayer e filha Julia Mayer. Vai com Deus mestre Jorge. Que tua trajetória continue fertilizando e iluminando tantas mentes e corações, conforme você fez questão de exercer esta tua vocação, vivendo entre nós. Valem para tí, meu querido amigo, os dizeres poéticos de Mario Quintana: “Todos esses que aí estão atravancando o meu caminho, eles passarão... Eu passarinho!” Um abraço saudoso do teu eterno amigo e admirador:

Gentileza gera gentileza

E por falar do querido mestre Jorge Miguel com sua enorme gentileza e carinho, creio que o resto do Brasil parece estar um pouco carente de gentileza e confuso sobre as consequências do tipo de emoções que nutrimos. É importante lembrar que semelhante atrai semelhante. O que você está pensando, sentindo e dizendo acaba realimentando exatamente a mesma coisa no mundo e em você mesmo. Desta forma, a violência gera violência, o medo gera medo e o Amor gera Amor.

Por isto, é preciso ter mais responsabilidade com as atitudes, emoções e pensamentos que disseminamos. Como disse o famoso profeta carioca: “Gentileza gera Gentileza”.

É interessante pensarmos na expressão: Gente ilesa. Pois é. Temos mesmo que proteger o nosso coração de toda a negatividade e maldade e protegermos a nossa sociedade também.

O grande filósofo Platão nos disse que a Verdade é a beleza, a Verdade é a bondade. Pois é! O contrário disto é contaminar o mundo e adoecer a mente das pessoas.

Para terminar, é preciso atentar para o fato de que um mundo negativo está morrendo (gritando) e um outro mundo positivo está nascendo (sussurrando). Com qual mundo você se identifica?

Porte/posse de armas no Brasil

Se gentileza gera gentileza e violência gera violência, o que diremos então sobre a idéia atual de liberarmos o porte ou posse de armas no Brasil. Tem muita gente defendendo isto, a exemplo do que fizeram nos EUA. É bom lembrar que, nos últimos dias, milhares de pessoas foram às ruas nos EUA para exigirem um maior controle sobre as armas, por causa da quantidade de mortes de pessoas inocentes, a maioria delas jovens e crianças.

Até concordo com muitos amigos de que o cidadão de bem deveria ter o direito de ter uma arma em sua casa para se defender de tantos delinquentes ensandecidos. Até aí é coerente. Mas a questão é que, à julgar pelos noticiários, 90% da população brasileira não tem nenhuma condição emocional de ter porte/posse de armas. Acredito que por aqui a coisa seria pior do que nos EUA, pois somos o país dos “quebra barracos”.

Imaginem só como seria: briga de trânsito é saca revólver. Desentendimento no bar é saca revólver. Confronto nos estádios é saca revólver. Bate boca acalorado é saca revólver. Até briga entre marido bêbado e mulher ressentida vai ter saca revólver também. Imaginem agora se todos souberem que o outro também pode ter um revolver escondido. Aí vai ser melhor atirar logo para não correr risco de represália.

Com toda a notória delicadeza e educação do nosso povo e mais a atual propaganda do medo e do pânico, além das outras emoções negativas em voga como estresse, frustração, irritação e reatividade, e somando tudo isto ao porte de armas, a minha curiosidade vai ser sobre quais pistoleiros ficarão na nossa história.

Para terminar, imagine você que, ao invés de uma pessoa tirar o pedaço de madeira de uma criança que está batendo na outra, prefere dar um porrete à outra criança também, para que se matem. Por favor... Não creio que permitir a disseminação de armas seja a solução para nada. Nem a violência tampouco. Pelo contrário, o buraco é bem mais em cima. Mas aí já é outra história.

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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