28/03/2018

A paz é o caminho da paz

Jorge Miguel Mayer Jorge Miguel Mayer
"Também no Brasil estão se tratando problemas sociais como sendo policiais, numa espiral de violência."

Estamos numa época que requer reflexão para compreender, amor para nos guiar, lucidez para agir. Mais do que nunca é necessário e urgente que os bons se pronunciem, como afirmou Luther King ao constatar que não se surpreendia com o barulho dos maus e sim com o silêncio dos bons. Quando o presidente da nação mais poderosa e rica do planeta preconiza que os professores se armem para enfrentar os assassinatos coletivos em escolas, nos Estados Unidos, (fatos que já se tornaram comuns) então estamos diante do furor armamentista e a total falta de princípios. Tenho visto que há uma certa sincronia entre o que ocorre nos Estados Unidos e no Brasil que está se tornando cada vez mais uma colônia econômica e cultural dos EUA.

Também no Brasil estão se tratando problemas sociais como sendo policiais, numa espiral de violência. Vivemos hoje níveis elevados de genocídios, de corrupção e até mesmo de censura. Todos tomaram conhecimento das tentativas encabeçadas por Temer de formar o Ministério da Segurança e, recentemente, com a cumplicidade do governador, entregou a Segurança para uma intervenção militar federal. Segurança de quem? Estado Policial!!

A forma como foi anunciada a intervenção surpreendeu a sociedade. Uma verdadeira operação de guerra. A intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro tem sido comentada ex-post. Jânio de Freitas questiona a constitucionalidade da medida, que precisaria antes passar por conselhos. Vários comentaristas indagam acerca da sua eficácia.

Ao que parece, corresponde a um aumento dos gastos orçamentários em equipamentos policiais; representa um desgaste do governo do Estado do Rio de Janeiro, que sepulta de vez sua autonomia. Parece ser mais um gesto autoritário de um governo golpista, extremamente perigoso num ano eleitoral, aliás, comprometido pela impugnação da candidatura de Lula, que liderava a pesquisa de votos. Pode ter sido uma compensação pela derrota, pela incapacidade da aprovação da Reforma da Previdência nos termos propostos, e uma afirmação que o Governo Federal existe.

O ato poderia ter sido feito dentro da normalidade institucional, mas por alguma razão se preferiu a teatralidade do gesto. Dissemina-se o medo nas comunidades e até na sociedade. Volto a afirmar que se está caminhando na contramão das soluções, ao tratar a questão social como caso de polícia. No meu entender caso se aplicasse uma política social em favor do pobre se estariam construindo as bases da paz, da estabilidade e do fundamento da coesão social.

Parece ser o golpe em marcha de um governo que precisa promover gestos espetaculosos permanentemente. Complementam medidas pela censura na universidade e de retração da pesquisa. (O Ministro da Educação Mendonça Filho proíbiu, recentemente, a realização do curso “O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”, promovido pela graduação em Ciência Política da Universidade Nacional de Brasília). Muitos ainda sentem o cheirinho de 64; da repressão violenta que ultrapassou qualquer direito, que generalizou a pena de morte e a prática da tortura. Marx dizia que um fenômeno ocorre primeiro como tragédia, e sua repetição, na segunda vez, se dá como farsa. A repressão pelas armas, geradora de mortes, só gera infelicidade geral. Ao invés de submeter a juventude à morte, com efeitos duvidosos sobre o crime e a violência, por que não agir positivamente? A intervenção militar dentro de governo que não paga seus funcionários, que atrasa pagamentos, que perpetra crimes nas favelas, não é uma vergonha?

Como afirmou Lula, o Estado do Rio precisa de intervenção para o desenvolvimento e não militar-policial. O Estado do Rio tem sofrido a desindustrialização brasileira e, no caso regional, a queda dos preços do petróleo. Reduz-se a atividade produtiva e aumenta-se a improdutiva. O Estado do Rio passa a ter um corpo pequeno e uma cabeça enorme...

Quem será reprimido assim? Em 1964 se instituiu um governo militar. A diferença hoje em relação a 1964, é que a classe dominante se apresenta dividida, sem objetivos claros. Em 1964, vários segmentos civis apoiaram o golpe que teve o forte apoio dos Estados Unidos e contou com a participação de gente como Golbery do Couto e Silva, Roberto Campos (Bob Fields). Além disso, o país está parado e a solução para isto é remota ou requer uma mudança social. Como nos últimos tempos do Império Romano, os golpes militares nada conseguem. Temer. o feitiço pode virar contra o feiticeiro!

Os bloqueios institucionais são furados de vez em quando, como ocorreu com blocos e desfiles carnavalescos, a exemplo daquele da Escola de Samba Paraíso do Tuiuti. A verdade não se pode silenciar a longo prazo. Ela sempre aparece. E estão surgindo blocos com demandas políticas.Certamente eles confluirão para uma postura geral do povo. Esta é a nossa força. Lembro um amigo que disse que mais do que organizar partido, as massas deviam se organizar como na Escola de Samba, em que as alas se combinam num todo harmônico.

Com prazer faço uma retificação: no artigo publicado neste jornal em seu último numero quando me referi ao notável livro de Ronaldo Lima Lins. O título correto é “O Livro e seus Algozes: razões da desrazão. Foi publicado do Rio de Janeiro, pela Editora Mauad X, em 2017

Neste carnaval morreu o autor do samba “Tristeza, por favor vai embora”,samba feito com a parceria de Haroldo Lobo. Adeus, Niltinho!

Por: Jorge Miguel Mayer

O autor é doutor e professor de História da Universidade Federal Fluminense

VOLTAR À PÁGINA INICIAL