27/03/2018

A outra face da Luz

Dib Curi Dib Curi
"Nossa rotina, baseada na falta de Amor, nos fez esquecer da luz que existe para além das nossas janelas, emperradas no dia a dia de quem jamais aprendeu a olhar além."

Quando nascemos, inicia-se a nossa imersão na realidade. O que chamamos de realidade é algo tão imenso e complexo que confunde-se com o próprio Universo. Vejo as pessoas convencidas sobre seu saber, destilando convicções sem jamais se perguntarem se sabem mesmo aquilo que dizem saber.

Acabei compreendendo que muitas pessoas estão cativas dentro de si, em suas dores, reatividades, emoções e preferências, tendo poucas condições ou distanciamento para avaliar o real. Acho espetacular o nível de energia envolvida no real, o que nos faz estar sempre a beira do caos. Compreender o real é tarefa quase impossível para nós, que vemos o mundo à partir de nossas crenças e pequenas exigências, expectativas ou interesses.

Creio que uma sociedade com tão poucas perspectivas é consequência de pessoas fechadas também. O quarto lacrado de nós mesmos (egocentrismo) acumula memórias de dor, cansaço, ressentimentos, ligações e rejeições, construídas na ilusão de uma luta que acabou se tornando real. Assim, acabamos por fazer do mundo a imagem de nós mesmos; inseguros, competitivos e aquisitivos. A rotina da nossa falta de Amor nos fez esquecer da luz que existe para além das nossas janelas, emperradas na rotina de quem jamais aprendeu a olhar além. Me lembro da Alegoria da Caverna de Platão e da estória do prisioneiro que viu a luz.

Parecemos arraigados em um sistema de crenças que já dura 4 mil anos ou mais. A disseminação de valores substanciais ou revolucionários sempre ameaça as nossas crenças, valores e pseudo segurança. O vício milenar começa com a crença num Deus transcendente (fora de nós) e se prolonga na necessidade de um Estado ou de governos, nos quais confiamos a condução de nossas vidas.

Na verdade, o poder criador está em nós (Deus dentro). Esta energia se origina em um fantástico Universo divino, luminoso e cuidador, mas se materializa através de nossas limitações, intenções e ações. Assim, aquilo que cremos é aquilo que vivemos. Subvertemos a energia de Amor em dor. Por outro lado, esperamos a materialização de nossas esperanças vindo do externo e abrimos mão da responsabilidade para transferi-la para os responsáveis por nossa dominação e alienação.

O fato é que demoramos muito tempo para perceber as armadilhas da manipulação dos poderes, dos desassossegos e do medo que nos causam. A metáfora é a seguinte: Poderes fora de nós são como vampiros. Fogem do Sol, pois gostam das sombras. Se alimentam do nosso sangue.

E por falar em sombra, creio que é uma questão de frequência mental ou estado emocional: Estamos privilegiando a luz ou as sombras? Para o psicanalista Carl Gustav Jung (1875 - 1961), a sombra refere-se ao ego primitivo. Cada um deve tornar sua sombra mais clara para que ela não nos controle, subterraneamente, com sua imoralidade e violência, negligenciadas por uma moralidade de fachada. No meu entender, todo poder externo nos impõe um modelo útil de ser humano para seguirmos, reprimindo aspectos importantes da nossa personalidade. Os aspectos negligenciados se invertem por carência e tornam-se causas do desvario. A falta de Amor subverte-se em violência e dor. O bloqueio na criatividade se manifesta na competição. A necessidade de paz e cuidado se transforma em ressentimento e guerra. Por isto, não se combate as sombras reprimindo-as, mas acolhendo-as. Já dizia o mestre: “Combatei o mal com o Bem.”

Existe um mundo acabando e outro começando. O mundo que morre traz a marca da negatividade, da crítica, da condenação, da degeneração e da corrupção dos costumes. Já o mundo que nasce traz a brisa da renovação, da pureza, do otimismo, da cura, do crescimento espiritual e da alegria. Em qual mundo você vibra? Onde você vibrar, aí você viverá.

No fim das contas, chegará o momento de partirmos daqui e, independente de nossos achismos e opiniões, se espera que a nossa presença neste mundo tenha servido para diminuir a dor, disseminar a alegria e a reverência pelo milagre e para afirmar o Amor e a esperança na LUZ dos novos horizontes, apesar dos pesares. O mundo tem a sua face sombria, sempre teve. Ela é consequência de quem é o ser humano, do belo e do trágico que trazemos em nosso coração. O mundo é o nosso espelho. O que estamos refletindo?

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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