27/03/2018

O que você está meditando?

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"Se você for buscar a meditação saiba que você irá entrar numa jornada de investigação, questionamento e revelação da sua natureza."

É comum as pessoas procurarem a prática da meditação para se tornarem mais calmas, diminuírem os pensamentos, trazerem paz para a mente e não são poucas que chegam buscando a meditação para se tornarem mais eficientes em suas atividades. Outros buscam para tentar aliviar o sofrimento causado por ansiedade, depressão e pânico. E este não é um desejo equivocado, a meditação pode ajudar em tudo isso, mas a forma como as pessoas acham que vão conseguir isso é bem diferente do que elas pensam.

Muitos pensam que a meditação é uma prática para acalmar a mente e diminuir o fluxo de pensamentos e sentimentos e entrar numa espécie de “férias da vida”, mas não é bem assim. A meditação na verdade é uma prática para mudar a mente, ou seja, mudar a maneira de percepção que você tem do mundo e de si mesmo e isso não acontece apenas se sentando e prestando a atenção na sua respiração, em algum objeto, mantra ou música new age. Ao contrário do que se pensa, isso acontece ao você direcionar sua mente para um mergulho profundo na vida e trazer mais lucidez para ela.

Portanto, se você for buscar a meditação saiba que você irá entrar numa jornada de investigação, questionamento e revelação da sua natureza. E isso no princípio pode não te deixar nada calmo e com uma boa impressão de si mesmo. Isso porque você vai começar a desafiar as estruturas que geram a sua confusão e sofrimento e isso pode não ser muito prazeroso.

Toda meditação tem sua base numa visão da realidade, mesmo que esta visão seja uma não-visão da realidade. Eu poderia dizer que até uma simples prática de relaxamento também não é isenta de uma visão da realidade, pois práticas de relaxamento te induzem a um certo estado de percepção da realidade e de si mesmo de forma que você tenha uma experiência de relaxamento, acreditando que isso vai te fazer bem...será?. Depende da visão.

No Budismo, explica Lama Tsering Everest, “existem três pontos inter-relacionados que precisam ser muito bem desenvolvidos: a Visão, a Meditação e a Ação. Qualquer um que esteja praticando, precisa estar bem versado na Visão, que é o ponto inicial. A Meditação, o segundo ponto, é o exercício da Visão. E finalmente precisa desenvolver a Ação, que é a implementação prática da Meditação. Em última análise, a Ação é a implementação da Visão.”

Esta não é uma verdade apenas no Budismo. Na vida nós também nos conduzimos a partir de uma visão, uma meditação e uma ação, como explica o Lama Dzongsar Khyentse Rinpoche:

“Por exemplo, qual é o melhor carro que temos agora? BMW, digamos. É anunciado como o melhor carro, o mais rápido, o mais suave, o mais luxuoso, o mais confortável e todas aquelas coisas. E a visão, neste caso, é de certa forma confiar em todas estas propagandas e pensar que “Sim, o BMW é um bom carro”. Isso é a visão. Ter uma idéia. A partir de um ponto de vista acadêmico, quando dizemos “visão”, estamos falando sobre uma idéia. O BMW é um bom carro. É isso. Isso é a visão. E então, quando dizemos meditação, contemplando-o, admirando este carro, a cor, a forma, o modo como corre — não sei. Mas geralmente aqueles que estão obcecados com qualquer visão que tenham, ou que estejam aprendendo ou começando a se tornar obcecados com qualquer visão que tenham — isso efetivamente é a meditação. Tornar-se acostumado com esta obsessão ou, em melhores palavras, tornar-se acostumado com esta idéia. Isso é a meditação. E então a ação é efetivamente sair e comprar um BMW, dirigi-lo, convidar os amigos para correr nele e o exibir. Isto é o que chamamos ação. Então, é isso. Quando falamos sobre visão, meditação e ação, é assim que os entendemos. Então, este modo de categorizar é bem útil para entender a filosofia budista”. Dzongsar Khyentse Rinpoche

Meditações de tradições religiosas como a Budista, Hinduísta, Taoísta e Cristã tem como base de realização as visões espirituais de cada tradição, e saiba que elas têm muitas diferenças. Já outras meditações que podemos classificar de New Age, normalmente são de tentativas de integrar várias visões espirituais, muitas vezes a partir das experiências pessoais de um praticante espiritual. Por isso, antes de começar a fazer uma meditação orientada por alguém é preciso estudar e entender a visão que está por trás desta meditação e principalmente o histórico do professor. Precisamos estar muito atentos a isso, pois se você faz uma meditação sem saber qual a visão e quem te orienta é como você comprar um carro sem saber nada sobre ele, se ele é adequado para você e vai te levar onde você quer.

O que você está meditando na vida? Qual a visão da sua prática de meditação? Estas perguntas precisam estar na sua mente se você quer mudar as suas experiências e alcançar uma verdadeira liberdade e sabedoria.

Meu mestre budista Chagdud Tulku Rinpoche costumava dizer que nós meditamos o tempo todo sem perceber e que ainda meditamos de forma errada. O que ele queria dizer com isso é que cultivamos em nossa vida uma visão equivocada de realidade e nutrimos esta visão com nossos pensamentos, sentimentos e agimos com base neste equívoco, nos enredando em experiências nem sempre positivas e totalmente inconscientes.

Como podemos ver, o resultado de nossa vida depende da visão. A meditação é apenas uma técnica para cultivar a visão para ser implementada pela ação na vida.

Por isso o Lama Dzongsar Khyentse Rinpoche alerta:

“Não importa o quanto você se sente na almofada, não importa o quanto você não se distraia, não importa o quanto você medite, até que você tenha a visão correta, você não fez nada. Até que você tenha a visão correta, essas coisas não o levam a lugar algum. Você ainda está enredado, você ainda é o peixe sendo fisgado”.

Você pode estar se perguntando: Então qual é a visão correta? Bom, isso fica para a próxima edição.

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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