24/03/2018

Eleição sem eleitores, política sem políticos

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"No alvorecer da quarta revolução industrial, o centro de poder de controle das narrativas esmerilhou-se em mil pedaços e seus fragmentos se espalham de forma caótica pelas redes sociais."

Estamos assistindo em várias partes do mundo a chamada crise da democracia liberal.

A democracia liberal busca reunir num mesmo modelo socioeconômico liberdades tanto no campo político quanto no econômico. Funcionou muito bem em países mais homogêneos e sem tantas fraturas étnicas e religiosas.

Porém, esse modelo entrou em crise até mesmo nos países desenvolvidos da Europa e da América do Norte. O Brexit na Ingaterra, o crescimento da direita radical nos parlamentos de toda a Europa, a eleição de Trump no EUA são situações que demonstram o esgotamento da democracia liberal e a ascensão de um tipo de democracia não liberal populista, isolacionista e avessa a diferenças e minorias.

Entendo a democracia liberal como uma utopia dentre muitas outras e que tem seus aspectos luminosos e sombrios. Ela é herdeira da tradição humanista do Renascimento que colocou o homem como medida de todas as coisas. O fato é que nós aqui do Ocidente adoramos viver a experiência da individualidade radical. Essa possibilidade é amparada pela ideia de estado nacional garantidor da lei e da ordem.

Adam Smith, o pensador que colocou em palavras a dinâmica e as vantagens do liberalismo econômico, postulou que se cada ser humano cuidar dos seus próprios interesses, o resultado da articulação de várias ações egoístas seria um mercado que funcionaria em harmonia. Esta é a base do liberalismo econômico.

O problema, a meu ver, é quando a lógica do liberalismo econômico é transportada literalmente para a política. Nesse caso a democracia vira um balcão de negócios e pessoas sem escrúpulo passam a enxergar a política como uma maneira de ascender socialmente e dar vazão a delírios de grandeza. E, o pior, a lógica do mercado na política afasta pessoas com espírito público da vida pública, levando ao atual quadro deprimente de opções eleitorais.

Além do mais, desconfio que a democracia liberal desconsidera o fato de que, do ponto de vista evolutivo, o homem moderno, racional e cidadão de um estado nacional é um evento muito recente. No fundo, carregamos em nós ainda muito do homem arcaico primitivo e tribal.

Pois, se o homem contemporâneo tem tanto anseio pela individualidade a ponto de se alienar completamente da complexidade das disputas e dos conflitos a sua volta, seu psiquismo foi projetado durante os milhões de anos da evolução para permanecerem gregários e ligados a famílias, clãs e tribos.

É por esse motivo que existem os rituais e os mitos. Na família, no clã e na tribo, todos se conhecem face a face e intrincados sistema de rituais, obrigações e interdições regem relações de troca pré-capitalistas baseadas no que Marcel Mauss chamou de o dom e a dádiva. Levy-Strauss descreveu uma infinidade de possibilidades de variações de estruturas de parentesco entre tribos. Só na ilha da Nova Guiné foram encontradas cerca de mil línguas diferentes e uma exuberante variedade de hábitos e costumes sociais.

Conto essas coisas para mostrar como fomos modelados para viver uma infinidade de variedades de comportamentos sociais. O problema é que a modernidade, através da primazia das noções de ciência, tecnologia, democracia e estado nacional, reduziu uma ampla variedade de possibilidades a somente uma: a do homem urbano das sociedades industriais.

Quanto maior a sociedade, menor é a chance de se conhecer pessoalmente seus membros e os mitos tornam-se cada vez mais importantes para que, através de indícios na narrativa e no comportamento do outro possamos confiar ou desconfiar, se aliar ou combater.

No mundo moderno, a indústria cultural de massa, formada por jornais, rádios, Tvs, músicas e cinemas comandavam as narrativas e asseguravam a uma elite industrial e financeira o controle dos horizontes da imaginação. Atualmente, no alvorecer da quarta revolução industrial, o centro de poder de controle das narrativas esmerilhou-se em mil pedaços e seus fragmentos se espalham de forma caótica pelas redes sociais.

Novas narrativas estão sendo gestadas e testadas. Vejo, atualmente, duas novas narrativas ganhando força. A primeira é a da solução militar. A segunda é a de entidades que, por fora da estrutura dos partidos, promovem a formação política e encorajam pessoas com talento e espírito público a engajarem-se na disputa eleitoral, não importando a filiação partidária.

As duas visões de saída para a crise da democracia liberal são opostas, pois uma nega e a outra tenta aperfeiçoar o processo democrático.

As entidades que estão formando e apoiando candidatos à disputa eleitoral deveriam preocupar-se também com o eleitor, oferecendo a ele cursos de formação política e espaços de debate, cumprindo, assim, o papel que deveria ter sido ocupado pelos partidos políticos tradicionais.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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