26/02/2018

Além dos jogos corruptores

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"Todos os nossos impulsos corruptores têm sua raiz na sensação de uma insatisfação que brota da insegurança que temos diante da vida."

Ao longo da história humana, sempre vimos populações inteiras sendo injustiçadas, desrespeitadas e exploradas segundo os interesses de uma minoria estabelecida no poder. Vimos também inúmeras revoluções que surgiram para mudar este tipo de situação, mas que acabaram repetindo o mesmo padrão de desigualdade de direitos e deveres sociais onde oprimidos muitas vezes se transformaram em opressores.

É comum ouvirmos dizer que o poder corrompe. Mas não sei se é bem assim. Na verdade, não são só aqueles com poderes sociais e financeiros que estão mergulhados na busca de levar vantagem em tudo, certo? Se observarmos bem, todos nós estamos.

Ao que parece, há em todos nós esta tendência corruptora muito antes de conquistarmos o poder. Olhe para sua mente e você verá como você está a todo o momento procurando manter sua sobrevivência física ou psicológica. E é nesta busca pessoal que entramos em diversos tipos de jogos emocionais, ideológicos, financeiros, profissionais, religiosos etc., com suas justificadas tentativas de pular etapas ou desvirtuar regras.

Temos “evoluído” desta forma, sofisticando cada vez mais nossos jogos de sobrevivência e sucesso que muitas vezes não nos satisfazem. Sempre há um algo a mais a ser obtido, conquistado e realizado e para isto não é nada difícil perdermos nossa sanidade.

Talvez possamos achar que isto é uma coisa normal e que a vida nada mais é, foi ou será do que conquistar cada vez mais. Mas, é este tipo de pensamento que é o grande problema, pois ele que faz com que não questionemos esta busca e, assim, vislumbremos outra maneira de viver.

Todos os nossos impulsos corruptores têm sua raiz na sensação de uma insatisfação que brota da insegurança que temos diante da vida. O que quero dizer com isto? Quero dizer que vivemos envolvidos na equivocada percepção de uma vida incompleta e ameaçadora, gerando todo o tipo de medo e esperança. Diante da imprevisível e mutante dinâmica de vida e morte que é nossa existência, buscamos uma ilusória sensação de segurança baseada na permanência de coisas e condições que nunca são alcançadas. Por ser equivocada, esta busca acaba por nos afastar cada vez mais de descobrir nossa realidade e natureza incondicional. Nesta situação, acabamos gerando pensamentos e ações que só criam mais confusão e sofrimento.

Por exemplo, mesmo quando tentamos combater as situações de injustiça e corrupção que vemos no mundo, buscamos soluções que nos fazem gerar mais ações injustas e corruptas. Basta ver a quantidade de informações e contrainformações falsas nas redes sociais, na busca de se obter mais adeptos de um certo ponto de vista. Com a idéia de que precisamos conquistar a realidade externa a qualquer preço para mudar o mundo que vivemos acabamos criando exatamente o mundo que não queremos. Movidos pela insatisfação ilusória, seguimos nos debatendo uns sobre os outros na tentativa de aliviar nosso sofrimento, criando mais sofrimento e causas de sofrimento.

Somente tendo o ato corajoso de parar de agir e reagir movidos pela insatisfação/desejo para investigar e desafiar nossos medos e esperanças é que teremos a chance de desfazer nossos jogos corruptores. Desfazer nossos jogos nos deixa sem chão e nós criamos nossos jogos exatamente para fugir disso. Observe e você verá que ao menor sinal de desconforto ou desejo nós sempre buscamos algum tipo de solução. Não suportamos sentir o chão que pisamos se mover que logo queremos nos agarrar em algo. E é este agarrar que nos enrijece nos tornando cada vez mais estúpidos e perigosos.

Assim, perdemos a grande chance de experienciar a liberdade e paz que tanto buscamos e de termos ações éticas e virtuosas que tragam reais benefícios para nós mesmos e para os outros. Como quem foge de uma ameaça num sonho, nos seguramos em alguma coisa, em nossos conceitos, ideias, emoções, poder, posses e nos viciamos no alívio temporário que todas estas coisas nos dão, não percebendo a realidade onírica disto tudo e dando mais realidade àquilo que não existe.

As nossas tão proclamadas conquistas parecem ter mudado muito pouco nossa mente insegura e gananciosa. Talvez estejamos um pouco mais sofisticados, dissimulados, contidos, mas ainda autoiludidos. E o que vemos é que tudo que já nos foi dito com o intuito de se construir uma vida feliz e harmoniosa com liberdade, igualdade, fraternidade; ordem e progresso; paz e amor foi distorcido e desfigurado pela busca autocentrada de realização pessoal e ideológica.

Pode ser desanimador ver tudo isso, mas, na verdade, se você está sentindo isso é porque não entendeu tudo que eu disse até agora. O desânimo só surge se projetamos nosso bem-estar nas condições externas, na sociedade e no mundo.

A corrupção só terá poder sobre nós se cairmos na visão equivocada de nossa realidade que nos traz medos e esperanças.

A autêntica liberdade não depende de condições. E podemos começar a perceber isso quando somos encurralados e não temos outra alternativa a não ser encarar a situação sem querer escapar. E aprendendo a relaxar na insegurança do momento, podemos ver todo o poder opressor se desfazer na nossa frente juntamente com tudo aquilo que tanto queremos proteger, os limites que estabelecemos para nós.

Desta forma, expandimos nossa vida, ampliamos as possibilidades de viver e podemos fazer isso até descobrir nossa ilimitada capacidade de apreciação da vida. E assim, realmente livres, podemos olhar este jogo da ilusão com sabedoria e compaixão, sem nos deixar levar pela ideia de realização que vemos nos modelos de sucesso, felicidade e mundo ideal promovidos por aqueles que vivem no medo e que se mantém no poder a partir da exploração, do desrespeito e do sofrimento de muitos seres.

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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