25/02/2018

A (U) topia e o (E) leitor

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"Por isso, precisamos pensar sobre o papel do eleitor. Nas condições atuais, só o voto pode trazer de volta as melhores cabeças para a política. É preciso começar melhorando a cabeça do próprio eleitor."

Imagine, leitor, acordar um dia num mundo utópico. Nesse mundo, você levantaria todos os dias da cama e faria o que bem quisesse. Sua vida, ao invés de ser pautada pela necessidade de trabalhar para pagar contas, seria totalmente voltada para o desenvolvimento de seus talentos e para o engajamento em atividades que estivessem de acordo com seus propósitos de vida.

Imagine, também, seu espanto ao perceber que esse mundo idílico não teria sido alcançado, como seria de se esperar, através de partidos e de políticas de esquerda, mas, ao contrário, de direita.

Durante muitos anos, os fóruns de Porto Alegre (Fórum Social Mundial) e de Davos (Fórum Econômico Mundial) encarnaram a oposição entre as utopias socialista e capitalista. Houve uma onda vermelha nos anos noventa e nos primeiros anos do século XXI. A partir de então o pêndulo político voltou a pender para a direita.

O fato é que, enquanto o Fórum Social Mundial de Porto Alegre perdeu relevância, o Fórum Econômico Mundial de Davos continuou firme e forte, e, seu criador, Klaus Schwab, apresenta-se hoje como o portador da utopia trazida pela quarta revolução industrial.

A primeira revolução industrial começou com a máquina a vapor, tirou as pessoas do campo e levou-as para a cidade. A segunda, com a energia elétrica e o motor a explosão, criou a produção em massa e mudou radicalmente o estilo de vida. Os bites dos computadores e a Internet, a essência da terceira revolução industrial, trouxeram possibilidades ilimitadas de comunicação e compartilhamento de dados.

Agora está chegando a quarta revolução industrial, resultado da confluência dos avanços em vários campos da ciência: inteligência artificial, computação quântica, robótica, bioengenharia, big data, internet das coisas, impressão 3D e nanotecnologia. O resultado é que começamos a pensar nas possibilidades da fusão entre os mundos físico, biológico e digital.

Em entrevista para o jornal Valor Econômico (12/01/17) , Schwab constrói uma narrativa utópica para a quarta revolução industrial: “Devemos nos desafiar a criar, pró-ativamente, um novo mundo de trabalho. E, nesse caso, ele deve melhorar nosso senso de dignidade e propósito. Acredito que, se gerirmos esta fase de transformação, a humanidade pode entrar em um novo Renascimento. Na primeira revolução industrial, as pessoas passaram da agricultura para a indústria. Na segunda e terceira, elas se transferiram para o setor de serviços. Por que não imaginar que, no futuro, e com uma renda mínima garantida, as pessoas encontrarão propósito no quarto setor, onde estarão envolvidas em atividades sociais, humanísticas e culturais? Claro, isso ainda é um sonho, mas não é impossível e temos que construir narrativas positivas em tempos de transição, ansiedade e turbulência”.

Frente à dificuldade da esquerda de construir suas narrativas e práticas de modo positivo e realista, ver um líder do capitalismo mundial vir a público oferecer uma utopia é incrível. Principalmente quando ele admite que a saída para o desemprego estrutural causado pelo avanço da tecnologia só poderá se dar através de um programa de renda mínima, tipo de proposta que antes só encontrava voz nos partidos de esquerda.

Enquanto boa parte do mundo volta suas atenções para o futuro e investe pesado em educação e pesquisa científica, nós, aqui, vivemos a disputa entre o ontem, Lula, e o anteontem, Bolsonaro. Os melhores cérebros do País abandonaram a política. Estamos entregues aos piores elementos da sociedade.

Por isso, precisamos pensar sobre o papel do eleitor. Nas condições atuais, só o voto pode trazer de volta as melhores cabeças para a política. É preciso começar melhorando a cabeça do próprio eleitor.

A escritora Noemi Jaffe, em artigo para a Folha de São Paulo (17/01/18), pesquisou a origem da palavra eleitor e encontrou a raiz log e sua equivalente leg presentes também em palavras como colégio, apologia, diálogo, lógica, legal, leitura, coleta, colheita e eleição.

Podemos, então, pensar que a eficácia do voto do eleitor passa pelas condições do ensino do seu colégio, pela capacidade de concentração, análise e interpretação que demanda a leitura, pela capacidade de argumentação, pela disposição para o diálogo e pela possibilidade de coletar os dados necessários para sua tomada de decisão.

Em tempos sem utopias só nos restam as distopias: um mundo formado por indivíduos narcisistas e imediatistas afogados no dilúvio de marketing, redes sociais e fake news. A quarta revolução industrial, libertando o homem do trabalho repetitivo, traz de volta a possibilidade utópica de, desobrigado a vender sua força de trabalho como mercadoria, qualquer um possa viver uma vida significativa através do desenvolvimento de seus talentos e do engajamento em ações ligadas aos seus propósitos de vida.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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